14º Domingo do Tempo Comum

Mc 6,1-6

 “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”.

“Compreendi que esta é a total grandeza do amor: não se pode amar a divindade de Cristo sem amar primeiro a sua humanidade” escreveu HeidewicK di Anversa. Redescobrir cada fragmento, cada partícula de humanidade no evangelho, procurar todas as moléculas do lado humano de Jesus: a sua relação com as crianças, com os amigos, com as mulheres, com o sol, com o vento, com os passarinhos, com as flores, com o pão e o vinho.

Redescobrir o seu modo de ter medo, o seu modo de ter coragem, como chorava e como gritava, a sua carne-criança e depois sua carne-chagada,e ainda o seu amor pelo perfume de nardo em Betânia,pela casa dos amigos.

Amar a humanidade de Jesus, porque o evangelho revela isso:que o divino é revelado no humano , que Deus tem o rosto de um homem. Os habitantes de Nazaré presumiam conhecer muito bem aquele que para eles era somente “o filho do carpinteiro.’’ Mas na cidadezinha do interior, o “rapaz operário” toma a palavra dos especialis-tas na Sinagoga e ensina como se deve entender a Lei de Deus.

A reação dos donos da verdade e profissionais da religião é muito natural: “ o que é que ele pensa que é? Será que ele sabe com quem está falando? Qual foi a escola que ele frequentou pra pensar que pode dar lição na gente? Ora, vejam só: o Jesus ali do fim da rua,que todos nós conhecemos, analfabeto de pai e mãe, se metendo a intelectual! O lugar dele é na oficina; aqui na sinagoga, o que ele tem que fazer é calar a boca e escutar! Aqui quem fala somos nós, quem estudamos pra isso.”

Porém as multidões ( leprosos,famintos,abandonados,marginalizados,pecadores públicos) seguiam Jesus, na busca de uma segurança. Por isso é difícil de imaginar que tenha partido do povo as reações acontecidas na sinagoga de Nazaré, mas sim dos chefes do povo que sempre iludem, manobram e tangem o povo como massa para onde querem.

O evangelho de hoje começa e termina com duas admirações: começa com a admiração do povo de Nazaré: “de onde lhe vem tanta sabedoria e esses prodígios?” e termina com a admiração de Jesus: ” ficou admirado com a incredulidade deles.” Nem a sabedoria nem milagres fazem a fé nascer; a verdade é o contrário disso: é a fé que faz florescer milagres.

De onde lhe vem essas coisas? Não pode ser de Nazaré, nem daqui.

Jesus cresce na oficina de um carpinteiro, as suas mãos se tornam fortes de tanto apertar os cabos das ferramentas, o seu nariz cheira a resina de tanto colar as peças, sabe reconhecer o tipo de madeira… E lá em nosso íntimo, que não admite um Deus tão humano assim, pensamos: Deus poderia se revelar escolhendo outros meios, mais altos, mais elegantes, mais nobres! O evangelho diz: ele era para o povo de Nazaré motivo de escândalo.

A humanidade de Jesus escandaliza, um Deus tão próximo assim não é possível entender. Mas esta é a boa notícia do evangelho: Deus tem um rosto humano, o Verbo (2ª pessoa da SS. Trindade) tem a forma de um corpo. Procuramos Deus nas alturas do céu, mas Ele aparece ajoelhado por terra, aos nossos pés, com uma bacia de água e uma toalha na cintura.

Em Nazaré pensam: “o Filho de Deus não pode ser desse modo, com mãos de carpinteiro, com as dificuldades de todos…não há nada de sublime, nada de divino. Porém o Espírito de Deus desce no cotidiano, faz das casas um templo,entra pela porta onde a vida celebra a sua liturgia. Como os habitantes de Nazaré , também nós somos uma geração que despreza os seus profetas, e persegue seus homens e mulheres de Deus. Nivelamos tudo por baixo: é só um carpinteiro, conheço-o bem, conheço seus defeitos tintim por tintim.

De alguém colhemos só aquilo que nos mostra a sombra, os defeitos, e desse modo vamos apagando o eterno que se mostra no instante presente,no cotidiano,nas criaturas que estão entre nós.

Na conclusão do evangelho Marcos anota que Jesus não pode fazer ali nenhum milagre…mas logo em seguida ele se corrige: somente impôs as mãos a poucos doentes e os curou. O Deus refutado se faz ainda cura, mesmo de poucos. O amante rejeitado continua a amar. Seu amor não cansou: somente ficou admirado. Assim é o nosso Deus: não nutre jamais rancores, nem por quem o rejeita pois Ele perfuma de Vida a nossa vida.

23 anos. Natural de São João del-Rei. Secretário de Comunicação da Diocese de São João del-Rei, trabalhando no DEDICOM (Departamento Diocesano de Comunicação). Cursa Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).