19º Domingo do Tempo Comum

Jo 6,41-51

Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. 

Basta Senhor, não aguento mais! Elias, o maior dos profetas quer morrer. Está cansado e desencorajado, tão desesperado que diz:“Senhor tira-me a vida!” A história de Elias nos ajuda a interpretar o Evangelho de hoje.

Cansaço e sensação de fracasso.

A 1ª leitura do Iº livro dos Reis narrando o drama de Elias sintetiza a vida de cada um de nós. Nossa vida é luta, empenho, caminho, é um contínuo atravessar o deserto para chegar à montanha de Deus. Em nossa existência, cada um vive como Elias momentos fortes de ausência de coragem e sensação de fracasso. Elias estava pondo tudo em ordem na vida da comunidade,mas foge porque os poderosos queriam prendê-lo para matá-lo depois.

Estava desiludido das pessoas e mais ainda desiludido com Deus que não vinha em seu auxílio para restabelecer a ordem, a santidade e a justiça no mundo. Os poderosos sempre levavam a melhor. Elias se deita debaixo de uma árvore e cochila, decidido a deixar-se morrer, porque viu que não valia nada o esforço que tinha feito em fazer o bem.

Quantas vezes o desencorajamento nos leva a dizer: não aguento mais, não serve pra nada ser bom, não muda nada, não vale a pena viver o Evangelho. É muito longo o caminho, muito deserto, muita dor! Mas nessa situação Deus intervém… não para oferecer a Elias um cavalo forte pronto pra encurtar as distâncias desoladas do deserto.

Deus não tira o cansaço de Elias, mas leva-lhe um pouco de pão, um pouco de água. Alimentos simples: pão e água, mas sempre necessários. Esse é o estilo de Deus: Ele intervém com a força das coisas cotidianas, com a simplicidade e a pobreza que as coisas essenciais têm: pão, água, ar, luz e um amigo…

Deus mesmo se faz pão e próximo,anjo e carinho para que nós,discípulos muitas vezes cansados , não nos rendamos ao desânimo que nos ameaça. Quantas vezes ficamos também decepcionados com Deus. Porém Deus nunca nos prometeu grandes coisas, somente um pouco de pão e um pouco de água como ao profeta Elias.

Os apóstolos foram convidados a andar pelo mundo sem levar nada, mas reconheceram que nada nunca lhes faltou. O pão e a água é, para Deus, a provisão suficiente para se caminhar até o fim.

Podemos reconhecer dois elementos fortes que livram nosso coração de tantas angústias: 1º é a providência: Deus não nos deixa jamais sozinhos,e para que sintamos sua presença,sempre nos manda um “anjo” para anunciar uma realidade misteriosa que sozinhos não conseguiríamos compreender. O 2º elemento é o pão, o alimento que Deus providencia para que possamos retomar, o caminho do deserto até a montanha de Deus.

Mas há algo ainda mais necessário: um “anjo” ao nosso lado, a doçura de um anjo, que nos toque, nos fale, nos guarde, e povoe nosso deserto, como aconteceu com Elias. No Evangelho há grandes afirmações: Eu sou o pão descido do céu. Sou o pão da vida. Minha carne é para a vida do mundo; “Quem come deste pão viverá eternamente”; quem crê tem a vida eterna.

O eixo do texto de hoje é o verbo“comer”. Enquanto as religiões orientais se concentram na respiração, o cristianismo tem como gesto central o comer: em nós entra o Pão bom, que chega a todas as células e as alimenta. É Deus em nós, Deus sob a nossa pele, que se assenta no centro de nossa pobreza como um rei no trono.

Deus em cada veia e artéria, Deus que nos habita: remédio, cura, proteção, salvação. Esta é a vida eterna, prometida umas 100 vezes nos evangelhos. Certeza de uma realidade sem provas. Galho e videira, uma coisa só.

A minha carne é para a vida do mundo. Somente 04 letras “ p-a-r-a” que é o sentido da história de Jesus, declaração de amor da parte de Deus: para nós,para o mundo,para todas as nossas vidas, vale a pena viver e morrer. Nem mesmo Deus vive só para si mesmo; vive, reina e ama para nós e para o mundo. “Quem crê, eu vos asseguro, tem a vida eterna.” Se vida eterna fosse só para depois da morte Jesus teria dito: quem crê terá a vida eterna, mas Ele disse “tem a vida eterna.”

Vida eterna não significa só a vida depois da morte. Trata-se de uma vida de profundidade e qualidade novas, vida que pertence ao mundo definitivo. Uma vida que não pode ser destruída por nenhum vírus, nem ficar trancada na encruzilhada de qualquer estrada. Ficamos ainda perplexos quando Jesus afirma que “ninguém jamais viu a Deus”. Mas Deus está dentro de cada pessoa e de todas as pessoas.

Cada um tem em si um pedaço de Deus, que é diferente daquilo que o outro possui. Ninguém tem Deus de modo total, porque isso equivaleria a dizer que é Deus. Diante dessa dificuldade de encontrar Deus e de encontrar uma resposta para a nossa caminhada, temos tentado dar uma solução construída pelas nossas mãos. E porque Deus não intervém com seu poder, nos sentimos na obrigação de substituí-lo, e no final das contas ficamos marcados pela desilusão.

Jesus, sem tirar nada da Eucaristia, quer sublinhar que é a sua pessoa que conta, o concreto da relação viva que se deve ter com Ele. O simples comer fisicamente o alimento não nos assegura a relação com Jesus. A coisa mais importante é vivenciarmos o que Ele disse: “Eu sou o pão da vida”! É Ele que devemos tomar na nossa boca assim como Ele é.

Desse modo entramos em contato com Ele pela Palavra e pela Eucaristia sendo “anjos” de apoio, de ternura, de coragem e de sustentação uns para com os outros.