3º domingo da Quaresma

João 2, 13-25

“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”

A Globo insiste em pedir ao povo: O que você espera do Brasil, conte pra gente! Lembre-se: o celular deve estar na horizontal! A insistência é tanta que, parece, quase ninguém está respondendo. Mas baseado no Evangelho de hoje eu pergunto: como você deseja o mundo, o que você espera, o que você sonha para a nossa casa que é a terra? Que seja Casa do Pai onde todos somos irmãos ou casa do Mercado onde todos são rivais?

Esta é a escolha diante da qual Jesus nos coloca. Fico comovido com esta combativa ternura de Jesus ao expulsar os vendilhões do Templo: nele convivem a doçura de uma mulher enamorada e a determinação, a força, a coragem de um herói no campo de batalha.

Um gesto inflamado: “não façais da casa de meu Pai uma casa de mercado!” Não fazer do mercado a nossa religião, não fazer mercado da fé. Não adotar com Deus a lei de compra e venda, a lógica bruta do comércio onde damos alguma coisa a Deus (uma missa, uma oferta, um sacrifício…) para Ele nos dar alguma outra coisa. O mercado também pode acontecer em nossa espiritualidade quando pensamos que se pode comprar Deus com alguma liturgia, oração ou oferta. Muita gente pensa assim: quanto mais rezo mais estarei garantido, quanto mais missas mando celebrar mais assegurados estamos: eu e meus familiares! Isto também é fazer da Casa do Pai um mercado.

Ora, Deus não se compra e nem se vende… Ele é de todos. Ao se indignar Jesus quer nos mostrar um sinal de algo muito maior. Não é um convite dele para expulsarmos as pessoas que achamos indignas de nossas igrejas, mas é um convite para assumirmos os mesmos sentimentos e comportamentos dele para cuidar do verdadeiro Templo de Deus que ainda é profanado.

Profanado pelas leis do mercado, da bolsa de valores, segundo as quais o dinheiro vale mais que a vida. O Produto Interno Bruto (PIB) vale muitíssimo mais que os milhões de desempregados. Esse é o maior risco: profanar o homem é o pior sacrilégio que se possa cometer, sobretudo se for pobre, negro, criança, idoso, fraco, os principais no Reino. Templo de Deus é o homem: não façais dele mercado. Não o humilhar sob as leis da economia.

Mas também não fazer mercado do próprio coração: sacrificando os afetos sobre o altar do dinheiro. Não fazermos mercado de nós mesmos, vendendo a nossa dignidade e a nossa honestidade por migalhas de poder, por um pouco de vantagem ou de carreira. (Lembram-se da compra dos Deputados para a Reforma da Previdência, para a reforma trabalhista, para livrar o presidente das denúncias de corrupção, e outras compras e vendas mais?)

É verdade que o “edifício-igreja” é um lugar importante e que não deve ser deixado de lado de nossos cui-dados, mas não podemos nos esquecer que Jesus nos dá uma chicotada quando, mesmo cuidando de nossas igrejas materialmente, passamos por cima de toda profanação que deturpa a Casa de Deus. E a Casa de Deus a ser salva de profanação é o homem e a mulher sobre a terra, especialmente aqueles fora e longe dos nossos locais de culto, cujas paredes muitas vezes nos impedem de andar até eles, lá onde também Deus mora.

Nesta semana acontece o 08 de março, dia internacional da Mulher. Defender a mulher e promover tudo aquilo que leva a superar toda discriminação dela no trabalho, em casa, na política, e também na comuni-dade cristã, não só é um dever civil, mas também cristão.

Preocuparmo-nos e ocuparmo-nos com a humanidade em todas as suas expressões é outra forma de culto a Deus, porque Jesus nos ensinou que Deus mora justamente aí, em todo homem e em toda mulher.

A última palavra do Ev. desse 2º domingo da quaresma diz: Jesus de fato sabia aquilo que existe dentro de cada um. Então termino com uma oração: Ó Deus, que conheceis que coisa existe de angústia, de medo, de força, de escuridão no coração humano, Vós que nos fizestes assim, recordai que somos fracos e caímos facilmente, mas recordai também que somos vosso Templo, que em nós existe o bem mais forte que o mal, existe o desejo de acertar mais que o de errar, existe o amor mais intenso que a violência.

22 anos. Natural de São João del-Rei. Secretário de Comunicação da Diocese de São João del-Rei, trabalhando no DEDICOM (Departamento Diocesano de Comunicação). Cursa Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).