Afinal, os sinos falam?

Os Sinos tocam na Igreja de São Francisco de Assis em três vezes, repetidamente. Não é dia festivo ou data religiosa. O motivo é a morte de José Teixeira, membro da Ordem Terceira. As pessoas entendem a mensagem. Assim, a cidade ainda mantém a bela e curiosa tradição colonial: a linguagem dos sinos. Com seus toques ou dobrados, os sinos mantém uma linguagem peculiar de grande riqueza cultural, de conhecimento de muitos são-joanenses.

LUCAS 4Nos mais distintos tamanhos, com sons e timbres variados, os sinos estão sempre transmitindo mensagens e comunicando com a população, seja para notícias boas e festivas ou para anunciar a morte de algum morador. “O sino era o meio de transmissão dentro da cidade, por isto o nome de ‘cidade onde os sinos falam’. Hoje, mesmo com tantos meios tecnológicos de comunicação, não tendo mais a necessidade de se comunicar através dele, o sino se mantém com base, firme, sendo preservado e valorizado”, explica Nilson José dos Santos, sineiro há 24 anos.

Marca registrada da cidade mineira, o símbolo litúrgico já faz parte da família são-joanense, afinal, acompanha a rotina diária dos moradores da cidade, desde o amanhecer até o fim do dia. Companheiro de Nilson, “Conceição” – sim, os sinos têm nome – é um dos mais admirados na cidade. Ele integra um dos seis sinos das torres do templo dedicado a São Francisco, “pai dos pobres”. Na maioria das vezes um sino tem uma durabilidade maior que 50 anos e pesa, em média, três mil quilos. Há exceções, presentes na cidade, que chegam até a uma tonelada.

 

LUCAS 2

Paixão que vem de berço

Rodrigo Leandro da Silva é sineiro na Igreja do Rosário. Praticante da profissão há mais de 30 anos, ele recorda como surgiu toda essa paixão pelo instrumento litúrgico. “Morava nos arredores da Igreja Matriz (Catedral do Pilar) e, todo dia de manhã, observava aquele ‘negócio’ se movimentando no alto da igreja. Eu e meus irmãos ficávamos encantados”, recorda. Além de Rodrigo, a curiosidade invadiu toda a família. Seus cinco irmãos também encantaram pelo instrumento e tornaram sineiros.

Já não bastavam os irmãos, a paixão pelo sino também contagiou os sobrinhos de Rodrigo. Giovani e Vinícius não são sineiros por profissão, exercem outras funções, mas, quando chega dia festivo “logo querem dobrar os sinos”, conta Rodrigo que via Giovani, quando pequeno, repetir os gestos (feitos com o sino) em uma vassoura.“A gente incentiva, afinal, é uma forma de preservar a tradição, mas, como profissão é complicado. O salário é pouco. O que nos estimula mesmo é o amor pelo sino”, reforça Rodrigo.

 

13631479_957659281013799_4174198372714120873_nSinos novos na cidade

Foi realizado no último domingo, 24, a bênção solene do “Lourdes” e “Catarina”, novos sinos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga de São João del Rei. Os sinos foram adquiridos após a campanha chamada “Sentinela Sonora”, que mobilizou grupos sociais, ligados à igreja e ao patrimônio histórico.

 

COMPARTILHAR
22 anos. Natural de São João del-Rei. Secretário de Comunicação da Diocese de São João del-Rei, trabalhando no DEDICOM (Departamento Diocesano de Comunicação). Cursa Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).