Bíblia, uma linguagem humana

Foto: Guilherme Dias

O mês de setembro é dedicado a Bíblia, um Livro que tem mais de dois milênios de origem, mas que tem um alcance bastante atual. Tem-se a impressão que foi redigida “agora a pouco”, isto é, foi inspirada e escrita alguns anos atrás.

Esta contemporaneidade indica-nos um caráter especial destes escritos: comunicação de uma Pessoa e seus projetos. Não apenas doutrina e preceito, costumes e historiografia, mas relato de uma grande e profunda experiência de relações humanas embasadas na crença de um Ser superior que se revela tão próximo dos seres humanos. Esta revelação (retirar aos poucos o véu e voltar a encobrir-se com ele) é de iniciativa do próprio Deus que se dá a conhecer aos homens e mulheres. Um conhecimento que permanece inacabado, ou seja, não se esgota.

Deus está muito além da capacidade cognitiva do homem. Permanece como Mistério. No entanto isto não exclui a busca de um conhecimento maior de sua Pessoa. Podemos “acessar” esta procura na Bíblia que revela sua comunicação com os humanos (cf. Ex 43,28; Is 38,4).

De muitas maneiras o Senhor manifesta a sua presença. O encontramos no íntimo de nosso ser: “mas esta palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração, para que possas cumprir” (Dt 30,14). Esta Palavra é comunicada através dos Profetas ao Povo de Deus (Israel no AT). Eles se tornam os comunicadores da mesma guardando-a com toda a fidelidade.

Assim surgiu, aos poucos, a Bíblia. Redigida por seres humanos sob inspiração divina ela relata a caminhada de fé no Deus único realizada pelo povo israelita (cf.Dt 6,4). Narra a história de vida de um povo que tinha a missão de revelar a presença e ação deste Deus no meio dos povos. Mostrar seus desígnios, ou seja, seu Projeto de Salvação para todos os homens sendo sinal de sua misericórdia para com todos.

O humano “fala” do divino. Só é possível em linguagem humana porque não somos de natureza igual a de Deus, embora participemos de seu convívio. Mesmo sendo nós imanentes podemos aproximar do Transcendente, isto é, de condição terrena (criatura) achegamos do Ser Criador de todas as coisas, fonte das várias manifestações de vida (cf.Jo 10,34-37).

Assim a Bíblia é um grandioso esforço humano para comunicar a Revelação divina ao longo da história humana que é História de Salvação. Isto nos faz compreender um pouco mais o Deus que o Antigo Testamento nos apresenta. Sua ação, seu modo de agir e manifestar sua vontade. Só é possível utilizando a língua dos homens dentro do contexto histórico no qual o Povo de Deus estava inserido. Caso contrário seria muito difícil ou até mesmo impossível sua compreensão e acolhida.

Pois bem, fique claro que os escritos são uma interpretação que é resultado de uma longa reflexão sobre a vida de fé do povo hebreu ou israelita. Não é narrativa in loco, ou seja, no momento exato do evento. É, como disse antes, um magnífico trabalho de por em escrito o que foi assimilado pela fé que deve ser legada para as gerações vindouras (cf. Ex 24,7; Dt 17,19).

A maneira como Deus é apresentado agindo no meio de seu povo e atuando no mundo é chamada de linguagem antropomórfica, ou seja, são dadas características do agir humano ao Senhor. Ele é apresentado com sentimentos e ações próprias dos homens e mulheres. Embora sabendo que Ele é superior a nós, permanece como Mistério, só podemos expressar nossa compreensão acerca d’Ele na linguagem humana. Isto explica as imagens que sobressaem dos textos bíblicos do Antigo Testamento tão diferentes das apresentadas no Novo Testamento. É o mesmo Deus. O que muda é o contexto histórico, humano, social e religioso. Há uma “evolução” da humanidade e, por conseguinte, da relação com o divino.

Com o Mistério da Encarnação Deus se tornou mais acessível em Jesus Cristo que nos diz: “com efeito, aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque ele concede o Espírito sem medida” (cf. Jo 3,34). Por isso novas luzes são lançadas sobre o agir de Deus.

Compreendemos que o Senhor assume nossa condição humana, menos o pecado do qual nos liberta, para realizar o sonho humano da comunhão com o divino. Ele é o EMANUEL (Deus conosco) que age e interage conosco na construção da História de nossa Salvação. Assim o Novo Testamento nos apresenta o mesmo e único Deus que é desde sempre (cf. 1Jo 1,1s). O que mudou foi a percepção humana acerca d’Ele. Por isso a Bíblia, Palavra de Deus, foi escrita em linguagem humana. Podemos dizer que ela é Palavra humana sobre Deus.

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Departamento de comunicação