Casamentos comunitários e a Preparação para o Matrimônio

wedding rings

Nos tempos atuais, o número de casais que constituem um lar sem vínculo do Matrimônio é cada vez maior. Mas também tem sido crescente a busca do Sacramento do Matrimônio por parte desses casais coabitantes, conhecidos também por amasiados, como uma tomada de consciência, um verdadeiro retorno em busca do abraço do Pai misericordioso, pois para muitos destes casais não há qualquer impedimento. Para favorecer esse profundo momento, toda a Igreja, especialmente bispos, sacerdotes e equipes de Pastoral Familiar tem se empenhado na promoção dos casamentos coletivos (também conhecidos como comunitários).

Além de facilitar as questões burocráticas e financeiras – redução de custos cíveis e religiosos, bem como apoio pastoral para encaminhamento de documentação – os casamentos coletivos despertam duas perguntas nas paróquias que se lançam à esta nobre missão. A primeira: Casais com bastante tempo de convivência – alguns com filhos e netos – ainda precisam se preparar para o Matrimônio? Se a primeira resposta for sim, surge a segunda pergunta: Seria conveniente criar uma estrutura especial para eles?

Preparação para o Matrimônio: para todos que buscam o sacramento

Deixe-me destacar uma realidade que já é percebida na maioria das dioceses: o número de casais coabitantes que se preparam para o Matrimônio já parece superar o número de noivos da forma natural – a que está nos planos de Deus para o casal.

E ao olharmos para alguns casais coabitantes é grande a tentação de se pensar: “Este casal já está convivendo bem há vários anos, assistem as missas e são ativos na paróquia. Não precisa dos Encontros de Noivos!”
Não é bem assim. Quando buscamos orientações no Magistério e nas orientações pastorais oficiais da Igreja sobre o Matrimônio de casais que coabitam há vários anos, não encontramos referências diretas ao assunto dos casamentos comunitários. E isso faz sentido, pois, no final das contas, são casamentos como os outros e, por isto, já são objeto da doutrina que é enfática ao falar da necessidade de se preparar para o Matrimônio. A primeira pergunta pode ter sua resposta na Familiaris Consortio, quando São João Paulo II se referia à etapa Próxima, que são os encontros ou cursos de noivos, não deixando dúvidas ao afirmar que “esta catequese renovada de todos os que se preparam para o matrimônio cristão é absolutamente necessária, para que o sacramento seja celebrado e vivido com retas disposições morais e espirituais”(FC66). Note que, do ponto de vista da necessidade de preparação, não há distinção se o casal já constitui um lar mesmo antes do casamento ou se segue o caminho do noivado da dentro do projeto de Deus. É algo “absolutamente necessário” para todos os que se preparam para o Matrimônio e não somente para aqueles que não vivem juntos ou não possuem filhos. Desta forma, todos os que se preparam para o Matrimônio são considerados noivos nos documentos que se referem à preparação para o Matrimônio. É desta forma que a Igreja procura se certificar que o sim dado no altar seja consciente, muito mais como compromisso vocacional do que uma regularização de situação.

Além disso, através de uma preparação para o Matrimônio, se bem estruturada, os casais podem adquirir novos conhecimentos, reavaliar conceitos e práticas de suas vidas. Nenhum casal, nem mesmo os agentes da própria preparação, são tão instruídos e experientes a ponto de não existir nada a ser acrescentado.

É preciso diferenciar os temas para os dois perfis de noivos?

Se houver possibilidade, é interessante que o atendimento de casais maduros seja feito por agentes também maduros, mediante disponibilidade da equipe. Este aspecto já permite abordagens diferentes de alguns temas. Mas, de modo geral, os temas são os mesmos. Não podemos considerar, por exemplo, que um casal que já tenha passado a idade fértil não tenha que discutir paternidade responsável e métodos naturais. O acesso à bela doutrina da Igreja é fundamental para a formação católica e, além de tudo, é direito do casal conhecê-la.

Os documentos da Igreja não apontam diferenças de conteúdos para as diferentes situações dos noivos, como o documento Preparação do Sacramento do Matrimônio que cita os temas que precisam ser tratados com aqueles que se encaminham para o Matrimônio: “…deverão ser instruídos sobre as exigências naturais ligadas ao relacionamento interpessoal homem-mulher no plano de Deus sobre o matrimónio e sobre a família: o conhecimento em ordem à liberdade de consentimento como fundamento da sua união, a unidade e indissolubilidade matrimonial, a reta concepção de paternidade-maternidade responsável, os aspectos humanos da sexualidade conjugal, o ato conjugal com as suas exigências e finalidades, a reta educação dos filhos.”(PSM35)

Um curso especial para os casais que já vivem juntos?

Agora podemos responder à segunda pergunta: não há motivos para que existam dois grupos ou duas estruturas de preparação para o Matrimônio. Se todos precisam da preparação e os temas são os mesmos, separar aqueles que se preparam para o Matrimônio em função da forma como vivem poderia ser entendido como uma segregação e, além disso, a fragmentação e criação de estruturas não terminaria nunca. Primeiro separaríamos os casais que coabitam dos que não coabitam. Depois iríamos separar os que coabitam sem filhos e os que possuem filhos. Depois, os que têm filhos adultos dos que têm filhos crianças etc.
Além disso, há bons motivos para que todos participem juntos, como a riqueza das partilhas. Em alguns temas, os casais que coabitam há anos podem auxiliar os mais jovens como, por exemplo, educação de filhos e as finanças do lar. Por outro lado, os jovens que vivem a castidade podem mostrar que isso não é utopia, mas real possibilidade.
Então, todos os casais que desejam contrair o Matrimônio, independentemente de suas histórias de vidas e tempos de convivência, podem ser encaminhados à equipe do Setor Pré-Matrimonial para a participação nos Encontros de Preparação.

Um verdadeiro catecumenato

Não podemos esquecer que a Igreja nos pede que o tempo de Preparação Próxima – Encontros de Preparação para a Vida Matrimonial, também conhecidos como Encontros ou Cursos de Noivos – seja um verdadeiro catecumenato, com “encontros frequentes, num clima de diálogo, de amizade, de oração, com a participação de pastores e de catequistas”(Parágrafo 37, PSM). Ou seja, que se privilegie estratégias de formação através de partilhas que permitam o acompanhamento do casal e que se distancie dos “cursos” com o método de palestras, condensados em um fim de semana ou em poucos dias, infelizmente ainda existentes em muitas paróquias.