São João del-Rei: da linguagem dos sinos à internet

COMUNICAÇÃO: no dicionário Aurélio, é definida como a capacidade de estabelecer diálogos, ou seja, de transmitir mensagens. Pessoas, objetos, atitudes e figuras… Tudo fala. A comunicação é imprescindível ao ser humano e está intrinsecamente ligada à sua essência, entretanto, ela não se limita à habilidade humana da fala, comunicação é muito mais que isso. Como acontece em São João del-Rei, terra onde os sinos falam. Símbolos da tradição histórica da cidade, cada dobre ou repique passam mensagens que influenciam o cotidiano são-joanense e quem mora por perto confirma: é possível entender essa linguagem peculiar dos sinos.

O músico Márcio André Carmo nasceu em São João del-Rei e há seis anos mora próximo da histórica Igreja de São Francisco de Assis. Como em toda a trajetória da sua vida, no momento da entrevista, ao fundo, o som dos sinos também estava presente, anunciando que tinha procissão ali perto. Para Márcio, isso de ouvir a linguagem dos sinos todos os dias é algo natural, que faz parte da sua vivência.

De toques fúnebres a sons de alegria, ele nos conta que é orgulhoso por viver numa cidade em que se transpira essa vivência musical e comunicativa dos sinos: “Eu não sei reconhecer exatamente o que eles querem transmitir, como meus avós e tios conseguem, mas aos poucos a gente aprende. Eu vivo no meio dessa linguagem que os sinos representam então fica mais fácil entender essas informações”, comenta.  

Como Márcio, muitos são-joanenses identificam pelos dobres, repiques e toques, o que está acontecendo na cidade. Desde os tempos coloniais, eles são verdadeiros arautos da história de São João del-Rei e diariamente noticiam os acontecimentos principalmente ligados ao cunho religioso.

Congonhas, Mariana, Catas Altas, Sabará, Diamantina, Serro e Tiradentes são exemplos de outras cidades mineiras que também preservam essa tradicional comunicação com os sinos. Contudo, São João del-Rei tem a manifestação mais expressiva, contendo em média 30 sinos espalhados pela cidade com mais de 40 toques reconhecidos.

Em dezembro de 2009, os sinos de São João del-Rei badalaram com mais força, quando “da terra dos sinos” foi anunciado que essa linguagem presente em nove cidades do estado de Minas Gerais seria declarada como patrimônio brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), reconhecida como “Bem Cultural Registrado”.

Hoje, aposentado, o historiador Jairo Braga declara que estava presente no dia desta conquista. Com 33 anos dedicados às atividades do IPHAN, ele era o responsável pelo órgão em São João del-Rei. Feliz, ele diz que “mesmo com os novos elementos comunicadores, naquela comunidade central, o sino ainda é um arauto. Mesmo que ele toque com as raízes dos séculos XVIII ou XIX, a sociedade do tempo presente ainda consegue decodificar suas mensagens, seja aviso de missa ou de enterro”.

O historiador ainda acredita que essa tradição, a qual tem origem na mistura dos ritos católicos com a cultura africana, foi preservada graças a influência de alguns grupos da cidade ligados aos fatores culturais e religiosos, como as irmandades e as bandas bicentenárias.

Além do título, um dossiê com 110 páginas foi elaborado pela IPHAN para armazenar o conhecimento sobre a linguagem dos sinos presente nas nove cidades mineiras. Tanto este documento quanto o reconhecimento integram alternativas empregadas para a preservação deste patrimônio e da memória e especificidades das tradições locais.

Contudo, a cultura não é uma construção fechada ou morta, já que é influenciada diretamente pela sociedade. As mensagens transmitidas pelos sinos não foram substituídas, mas com o passar do tempo elas sofreram influências de novos elementos até alcançar o período da era digital.

Os guardiões da identidade são-joanense: em foco, os sineiros

A tradição dos sinos não seria mantida sem a “mãozinha” de algumas pessoas por trás das batidas. Guardiões da identidade são-joanense, os sineiros tem seu ofício formalizado como uma atividade regular, em que o funcionário tem a carteira assinada, tendo a missão de tocar os sinos frequentemente como uma das principais atividades de serviço.

Para aprender o ofício, é preciso alternar entre a observação e a prática. O saber tocar os sinos está na memória e habilidade dos sineiros, por isso as torres das igrejas, em dias de festa, ficam lotadas. É comum na cidade que os meninos subam até lá na esperança de que possam auxiliar nos trabalhos de repique.

Entretanto, subir em uma torre com mais de 20 metros ou ouvir continuamente sons que superam a 50 decibéis pode ser algo perigoso. Então, junto ao salário, os sineiros também recebem o pagamento de um adicional de insalubridade para cobrir os possíveis riscos aos quais eles estão expostos.  

Em 2018, os sineiros voltaram ao debate público da Câmara Municipal de São João del-Rei com o projeto de lei 7187 que prevê a criação do “Dia do Sineiro” na cidade. De autoria do vereador Rodrigo Deusdedit, o projeto foi aprovado e a data estabelecida para a comemoração será o quarto domingo após a Quarta-Feira de Cinzas, quando acontece a realização da Solenidade do Senhor Bom Jesus dos Passos na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar e o tradicional evento “Combate dos Sinos”.

Além de valorizar e dar visibilidade a essa profissão, o projeto pretende envolver agentes dos campos culturais e religiosos para que as atividades aconteçam. O cumprimento da lei fica a cargo da Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com a Diocese de São João del-Rei.

Reportagem de Camila Sotani, Graziela Silva, Karen Lino, Lucas Silveira e Tainara Paula

23 anos. Natural de São João del-Rei. Secretário de Comunicação da Diocese de São João del-Rei, trabalhando no DEDICOM (Departamento Diocesano de Comunicação). Cursa Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).