TDAH: desafios e perspectivas de quem tem energia de sobra

A dificuldade em se concentrar é um dos sintomas do TDAH, por isso, crianças portadoras do transtorno estão sempre inquietas, para lá e para cá. (Foto: Lucas Silveira)

Tudo começou na maternidade. Os longos choros e gritos de inquietação já alertavam a chefe de cozinha Iandara que a chegada de Daniela traria grandes desafios. Diferente da gestação de seus outros filhos, ela encontrava dificuldades em realizar gestos básicos como segurar a pequena nos braços e, até mesmo, amamentá-la. O que Iandara não sabia era que, assim como ela, outras mães também passaram por situações similares.

Daniela, de 5 anos, é portadora do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), uma doença que acomete, principalmente, crianças entre 7 e 14 anos, mas que pode prosseguir pela vida adulta. Ela, na verdade, representa aproximadamente 5% das crianças que passam por essa doença em âmbito mundial, conforme dados da Associação Brasileira de Déficit de Atenção.

O TDAH tem origens neurobiológicas, de acordo com o Ministério da Saúde, caracterizado por três pilares: a falta de atenção, a inquietude e a impulsividade. Ele se configura pela disfunção em áreas do córtex cerebral, especificamente do lobo frontal, responsável por controlar a parte psicomotora do sujeito e o desenvolvimento de aspectos como a memória, a linguagem, o pensamento e a capacidade de concentração.  

“As pessoas que têm TDAH possuem um córtex cerebral imaturo, por isso demoram amadurecer. Contudo, ele não pode ser identificado por exames científicos, mas por métodos clínicos”, explica a psicóloga infantil Denise Resende Silva.

Foi, assim, observando os comportamentos cotidianos de Daniela que Iandara percebeu que algo estava errado. Até frequentar festas de família passaram a ser um desafio para a mãe. “Ela mexia no bolo, abria os presentes e ficava completamente agitada, mais que o normal. As pessoas olhavam ‘torto’ para mim, como se fosse malcriação. Isso me fez ver que ela precisava de algum tratamento, mas eu não sabia o que era”, descreve.

Espaços públicos, como a escola, em que existem regras e de convivência com outras pessoas quase sempre dificultam o comportamento dos portadores de TDAH. Situações, como a apresentada por Iandara, fazem com que as famílias dessas crianças prefiram o isolamento da sociedade do que viver alguns desconfortos.

Como Daniela, são muitas as crianças que precisam de cuidados psicológicos. Anualmente, cerca de 150 meninos e meninas são atendidos pelo Centro de Referência em Educação Inclusiva (CEREI) de São João del-Rei, um número alto, já que se trata apenas de encaminhamentos da Rede Municipal de Ensino. Lá, Daniela e os demais pequenos possuem acompanhamento de pedagogos e psicólogos, além de realizarem oficinas educacionais como parte do tratamento, deixando, através de rabiscos multicoloridos, sinais de superação.

Durante esse período terapêutico é necessário que a família seja o grande apoio das crianças. Sem a ajuda familiar, não existe retorno no tratamento. “A luta é diária, mas não posso escondê-la ou fingir que não existe um problema. O TDAH ainda é um tabu e as pessoas vêem com certo preconceito”, destaca Iandara.

Apesar de uma predisposição hereditária, como em qualquer transtorno de comportamento, também existe a influência do meio externo. Mas é preciso atenção: nem tudo é TDAH. Segundo a psicóloga Denise, existe preocupação com os falsos positivos em crianças que apresentam necessidades diferentes de hipercinética acabam sendo diagnosticadas com algum déficit.

Desenhos e rabiscos coloridos são alternativa para filtrar a energia das crianças com TDAH. (Foto: Lucas Silveira)

“Atualmente, as crianças estão sendo muito mais cobradas e exigidas de atenção do que tempos atrás. A tecnologia tem proporcionado isso, uma dispersão forte. Uma questão comportamental mesmo”, ela comenta.

Não existe cura para o TDAH, entretanto, cronologicamente, os sintomas podem ser reduzidos. Quando a falta de atenção e a hiperatividade persistem até a fase adulta, ações como organizar o dia a dia, manter o emprego ou planejar o futuro são tarefas complicadas para se executar. Para o tratamento de um adulto com TDAH é preciso uma análise da infância, inclusive por meio de conversas com a família e amigos.

Apesar das principais características que definem um indivíduo portador do transtorno, o perfil de sintomas pode variar. No caso de Daniela, houve um atraso no desenvolvimento da fala, específico de seu diagnóstico. Então, um tratamento eficaz precisa atender às necessidades individuais de cada criança.

O acompanhamento do paciente ajuda a perceber os resultados do tratamento do TDAH na melhoria dos principais agravantes, tais como nas habilidades sociais e na autoestima. Em alguns casos, o desempenho acadêmico também pode ser modificado de forma significativa. Fato que demonstra que crianças com TDAH também podem ter uma vida digna.

(Arte: Emanuel Reis)

Na Escola

Os sintomas do TDAH em diversos momentos se confundem com a agitação e a rebeldia das crianças dentro da sala de aula. Entretanto, o que diferencia as atitudes comportamentais comuns das que têm raízes no transtorno é o grau de intensidade e frequência que ocorrem.

A vendedora Andreia, foi chamada diversas vezes na escola em que seu filho estudava. Já estava acostumada a ouvir sempre as mesmas reclamações: uma possível falta de educação vinda de casa.  Depois de observar mais o comportamento da criança, e leva-lo a um psicologo, conseguiu comprovar o equívoco da instituição em que, aqui nomeado de Carlos, de 8 anos, é portador de TDAH. Contudo, o laudo demorou ser aceito pela escola, e segundo a vendedora “O problema é que julgam um pelos erros dos outros”.

Assim, como no caso da Andreia a filha da, Assistente Administrativo, Junia, também aos 8 anos, com nome fictício de Isadora, recebeu o atestado de TDAH. Com comportamentos decorrentes do déficit de atenção, a escola e Junia não aceitavam a condição, e ambas não sabiam como lidar e resolver o quadro. Diante do caso, o atestado demorou ser obtido.

Na maioria das vezes, a escola dialoga com os pais e sugere a busca pelo diagnóstico através de um psicólogo. De acordo com a Superintendência Regional de Ensino de São João del-Rei (SRE), nenhuma das escolas estaduais atendidas na região possuiu um psicólogo ou psicopedagogo. “São 40 sob nossa jurisdição. E infelizmente, o Estado não designa psicólogos para as escolas.” explica Adriana Leitão, diretora da SRE.

Pedagoga, Jeanne Pereira da Silva, explica que faz falta ter um psicólogo presente na escola: “Facilitaria muito para nós professores e até mesmo para os pais. Estaríamos em contato constante com esses profissionais e trabalharíamos  em conjunto”.

O tratamento, nos dois casos citados duraram cerca de 6 meses. No caso de Carlos uma psicóloga fez o acompanhamento, e no de Isadora uma neuropsicopedagoga a auxiliou. E em ambos, uma rotina foi preparada, incluindo cronogramas com regras, premiação e compensações,  melhoraram o desempenho das crianças.  “Em casa eu fui trabalhando muito com ela, e hoje uma das melhores notas da sala é a da minha filha” conta Junia, com orgulho.

Pela acessibilidade, a Ritalina ainda é um dos medicamentos mais recorrentes para o TDAH. (Foto: Tainara Paula)

Medicação

A Ritalina é sinônimo de tratamento para o TDAH, O medicamento ocupa o topo de indicações como “solução” para crianças e jovens que sofrem com o transtorno, visto que é barato e acessível. Com o uso dele, a pessoa consegue ficar atenta e concentrada, e se mantém focada em uma atividade por mais tempo, sem comprometer seu desenvolvimento físico e mental. Por outro lado, a Ritalina é um estimulante que segue a mesma linha das anfetaminas, gerando um processo de dependência muito fácil, o que é causado pela alta estimulação que o remédio provoca.

Uma pesquisa feita pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) apontou que Nos ultimos 10 anos o Brasil registrou aumento de 775% no consumo de Ritalina. O psicoterapeuta Marcelo Marchiori, afirma que o medicamento tem sido indicado em excesso e com diagnósticos errados, precoces e imprecisos. Ele ainda conta que através de um controle científico feito pela OMS (Organização Mundial de Saúde), os Casos que realmente se   enquadram como TDAH são poucos com relação aos numeros de venda legais no mercado farmacêutico.

Ainda se discute se o TDAH é uma doença biológica e física, ou seja a criança já nasce com o distúrbio. Como cura momentânea, a Ritalina é uma estabilização neuroquímica, quem faz o uso consegue viver normalmente. Por outro lado, discute-se também que são os fatores externos que influenciam diretamente, saber o contexto e histórico social do paciente para entender o meio onde ele vive e o entender suas influências no que leva o  desenvolvimento da doença é fundamental para o entendimento e conclusão de diagnósticos pelos psicólogos.

Como exemplo, atualmente vivemos em uma era tecnológica na qual as crianças já nascem e crescem ambientadas aos recursos tecnológicos, precocemente, esses meios e estímulos influenciam na mente dessa atual geração de crianças entre 6 e 15 anos, tornando ansiosos e estimulados muito rapidamente com relação a crianças de 30, 40 anos atrás que não possuíam nenhum acesso.

Pais que não se sentem seguros com o uso do medicamento, buscam alternativas ao tratamento, Marchiori aponta ações que podem amenizar os sintomas nos casos menos extremos de TDAH como: prática de atividades físicas, atividades artísticas para o desenvolvimento da criatividade, músicas que acalmem o ambiente, silêncio quando necessário, mas sempre ouvir e dar atenção para a criança.

 

*Nota: adotou-se a estratégia de utilizar um nome fictício para as crianças e a de retirar o sobrenome das mães para que a identidade de tais fontes fosse preservada.

Por: Emanuel Reis, Graziela Silva, Lucas Silveira, Tainara Paula e Thais Machado

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