As Missas na TV e a Pandemia do Covid-19

Fomos atingidos por uma pandemia, mas há também uma epidemia do medo. Essa emergência do covid-19 merece o nome de apocalipse, em seu sentido bíblico: levantou-se um véu e apareceu uma revelação sobre a própria igreja, sobre sua fé, e sobre sua liturgia.

Enzo Bianchi (que orientou o retiro espiritual do papa e da cúria romana) em seu twitter escreveu que as numerosas celebrações tecnológicas e virtuais, as celebrações eucarísticas em igrejas vazias (missas sem povo e povo sem missa), foram os caminhos propostos mas não foram oferecidos com inteligência.

Não foi dito com clareza que estas missas não são autênticas liturgias, mas somente instrumentos de devoção e ajuda à oração pessoal. Me entristece dizer, afirmou: inútil instituir o “domingo da Palavra”, se depois não se convida os cristãos a se alimentarem da Palavra, em casa, pois também ela é verdadeiro corpo de Cristo, sobretudo nesse momento quando somos forçados ao jejum da Eucaristia.

A transmissão das missas pela TV não é uma solução suficiente, neste momento em que as celebrações estão suspensas. Uma passagem à “devoção virtual”, à “comunhão a distância”, de joelhos na frente de uma tela de TV, é algo muito esquisito. Deveríamos, sim, pôr à prova a veracidade das palavras de Jesus: “Onde estão dois ou três reunidos no meu nome, aí estou Eu no meio deles”. Temos necessidade de aumentar as possibilidades do ministério dos leigos na Igreja (não nos esqueçamos de que, em muitos lugares, a Igreja sobreviveu sem clero por muitos séculos).

A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II mudou os ritos mas não mudou em profundidade as mentalidades e portanto não fez amadurecer os cristãos para um “culto espiritual” (Rm 12,1), um culto conforme a Palavra, na qual se oferecem a Deus os próprios corpos em sacrifício vivente. Muitos pastores não convidaram os fiéis a celebrar em família a liturgia doméstica da Palavra. E comunidades pequenas, também religiosas, preferiram seguir os ritos diante da tela da TV ou do celular em vez de celebrar a Liturgia da Palavra, uma vez que somos todos um “ reino de sacerdotes para Deus.” ( Apoc 1,6)

E quando tudo passar?

Quando o vírus tiver desaparecido ou ao menos estiver sob controle e pudermos voltar à igreja para celebrar em comunidade a Eucaristia nossa alegria deverá ser parcial. Porque parcial?

Na véspera do conclave que elegeu o Papa Francisco, o então cardeal Bergoglio citou um trecho do Apocalipse em que Jesus está à porta e bate. E acrescentou: Hoje, Cristo bate mas a partir de dentro da Igreja e quer sair. Neste ano, muitas das nossas igrejas estavam vazias na Páscoa. Mas poderíamos ler na nossa casa as passagens do Evangelho sobre o túmulo vazio.

O vazio das igrejas nos lembra o túmulo vazio. E a voz que vem do Alto diz:“Ele não está aqui. Ressuscitou! Ele vos precederá na Galileia”. Onde fica a Galileia de hoje? Onde podemos encontrar o Cristo vivo ? O Senhor Jesus já bateu à porta a partir “de dentro” e saiu – e cabe a nós cristãos buscá-lo e segui-lo do lado de fora. Cristo atravessou a porta que nós havíamos trancado por medo dos outros. Pulou o muro que tínhamos construído à nossa volta para nos protegermos. Abriu um espaço cuja amplitude e profundidade nos deixam quase sem fôlego.

No início da sua história, a Igreja primitiva dos judeus e dos pagãos convertidos viu a destruição do Templo de Jerusalém onde Jesus costumava pregar e ensinar aos discípulos. Então os convertidos daquela época encontraram uma solução corajosa e criativa: substituíram o altar do templo demolido pela mesa familiar, e substituíram a prática do sacrifício pela oração privada e comunitária.

Substituíram os holocaustos e sacrifícios de sangue pelo “sacrifício dos lábios”: a reflexão, o louvor a Deus e o estudo da Palavra de Deus. Acredito que quando tudo isso passar teremos celebrações eucarísticas não na Televisão (a não ser para os doentes e idosos) mas celebrações com palavras menos frias, com dinâmicas menos artificiais, e especialmente com comunidades menos afastadas, menos esquecidas, menos negadas; com comunidades mais vivas e participativas.

A missa é lugar de contato, de reconhecimento, de proximidade de irmãos na fé: a mão com luvas, o rosto encoberto com máscara e a distância de segurança de 1 metro e meio são formas de contratestemunho simbólico, pois falam de desconfiança e de medo. Tais formas podem ser toleradas apenas para “ritos de passagem”, não para “uma celebração comunitária da Eucaristia”.

Tudo deverá reforçar em nós o pedido ao Espírito Santo em Pentecostes: “Regai em nossa Igreja o que é árido (…), dobrai o que é duro, e aquecei o que é frio”.