15º Domingo do Tempo Comum

Lc 10,25-37

“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência; e ao teu próximo como a ti mesmo!”

O evangelho deste 15º domingo do Tempo Comum é retirado de Lc 10,25-37 e narra o episódio da parábola do bom samaritano. O evangelho de Lucas é chamado evangelho do caminho, pois narra o caminho da Palavra que sai da Galileia até chegar em Jerusalém. No caminho para Jerusalém, Jesus propõe aos discípulos o ensino a respeito do modo prático de realizar a vontade de Deus. Na perícope deste domingo a lição se desenvolve em dois momentos que estão interligados entre si: o diálogo com o mestre da lei e a parábola do bom samaritano.

No diálogo entre o mestre da lei e Jesus vemos uma pergunta que os discípulos judeus costumavam fazer a seus mestres: “O que devo fazer para receber de herança a vida eterna?” Note bem que o acento recai sobre o fazer, sobre a práxis. Jesus responde a pergunta com uma contra pergunta que leva o mestre da lei a buscar respostas no seu patrimônio religioso. Na lei de Moisés já está contida a vontade de Deus e não há necessidade de novas formulações.

O mestre judeu relembra o grande princípio que orienta a religião judaica e que está contido em Dt 6,4-5 “”Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.” Existe outro princípio que orienta a práxis judaica e está contido em Lv 19,18 “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Estes dois princípios unidos formam aquilo que a tradição de Israel tem de melhor no que diz respeito a práxis religiosa e Jesus não acrescenta nenhuma novidade ele apenas retoma algo que Israel já conhece. Entretanto, o segundo princípio judaico do amor ao próximo é o objeto da pergunta feita pelo mestre da lei a Jesus. O legalista judeu pergunta; quem é o meu próximo? Essa questão parece ser recorrente entre os mestres judaicos. Sobre a prática do amor a Deus não se tem questionamentos pois ela está ligada ao culto, as orações; mas o amor ao próximo levanta todo tipo de questionamento.

No Antigo Testamento o próximo é o compatriota, membro do povo de Deus, na época de Jesus esse entendimento era mais restritivo ainda, isso por que, o próximo era praticamente o membro do mesmo grupo religioso. É sobre este pano de fundo que a resposta de Jesus em forma de parábola é um ensinamento magistral.

A parábola fala de um homem que viaja de Jerusalém a Jericó. Nesse trajeto se passa por uma região desértica cheia de desfiladeiros que são lugar ideal para ataques de assaltantes. A narração de Jesus mostra que o homem ao ser assaltado ficou gravemente ferido. É importante notar que as estradas na época de Jesus eram pequenos caminhos o que tornava impossível não perceber o homem caído pelo caminho.

Jesus introduz na história dois personagens um levita e um sacerdote. Os dois homens do culto veem o homem caído (pois era impossível não ver) e passam adiante. O ouvinte de Jesus poderia até buscar um motivo para que os dois homens não socorressem o homem ferido. O sacerdote não teve obrigação de socorrer o ferido, porque se tornaria inapto para o culto, caso o homem morresse ele ficaria impuro e não poderia celebrar o culto; ou não socorreu porque não era membro do seu grupo.

Para surpresa do legalista judeu aparece um protagonista inesperado, um samaritano (que para o judeu era um grupo de pessoas que merecia desprezo) passa pelo caminho e cuida do homem ferido. Na parábola, Jesus descreve os gestos de socorro e de ajuda: o curativo com vinho para desinfetar os ferimentos e óleo para aliviar as dores; o transporte até uma hospedaria e o pagamento de todas as despesas do homem ferido.

Após contar essa parábola Jesus desconcerta o mestre da lei com uma pergunta que leva o legalista judeu a tomar uma posição. Não se deve questionar quem pode ou não ser objeto de amor, mas quem é o sujeito: não quem é o próximo, mas como alguém se torna próximo. A medida do amor para com o próximo não é estabelecida na base das fronteiras de pertença religiosa ou a um grupo social, mas unicamente na base da necessidade do outro. O próximo, então, é todo aquele que se aproxima dos outros com amor operativo e generoso sem se importar com barreiras religiosas, culturais e sociais.

Referências

FABRIS, R.; MAGGIONI B. Os Evangelhos II. Loyola: São Paulo, 1995.