24º Domingo do Tempo Comum

Mt 18,21-35

“É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

No evangelho deste 24º domingo do tempo comum lemos a perícope retirada de Mt 18,21-35. Esse excerto faz parte do chamado discurso eclesial de Jesus. Este “discurso” tem como ponto de partida algumas recomendações apresentadas no evangelho de Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37.42-47), mas que Mateus ampliou de forma significativa.

A passagem bíblica fala do perdão e sabemos que o mandamento do perdão não é uma novidade. Israel já ensinava a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido qualquer falha. Os teólogos de Israel acreditavam que a obrigação do perdão só existia apenas em relação aos membros do Povo de Deus. A grande discussão girava, porém, em torno do número limite de vezes em que se devia perdoar. Todos os estudiosos da lei aceitavam que o perdão tem limites e que não se deve perdoar indefinidamente.

É nesta controvérsia a respeito do perdão que Jesus está sendo envolvido pelos discípulos. Diante da pergunta de Pedro, a resposta de é categórica: deve-se perdoar sempre, a toda a gente (mesmo aos inimigos) e sem qualquer reserva ou distinção. Para ilustrar essa realidade Jesus conta uma Parábola.

A parábola fala de um funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor, revela-se incapaz de pagar a sua dívida. O senhor ordena que o funcionário e a sua família sejam vendidos como escravos; mas, perante o pedido de clemência do servo, o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia e perdoa a dívida.

Chama a atenção o tamanho da dívida do empregado. Jesus fala que a dívida de 10000 talentos. Talento é uma unidade de medida da antiguidade, que no mundo judaico equivaleria a 36 Kg de ouro ou de prata, desta maneira, a dívida do sujeito equivale a 360.000 Kg de ouro ou prata. Dez mil talentos é uma soma impagável. O exagero da dívida serve, aqui, para pôr em relevo a misericórdia infinita do senhor.

Na sequência da parábola, o funcionário perdoado se recusou a perdoar um companheiro que lhe devia apenas 100 denários. Um denário equivale a 12g de prata e correspondia ao valor do pagamento de um operário, somando o valor da dívida daria 1,2Kg de prata. Cem denários correspondia uma quantia insignificante para um alto funcionário do rei.

É precisamente desta diferença de comportamentos e de lógicas que resulta o terceiro quadro (vers. 28-35): os outros companheiros do funcionário real, chocados com a sua ingratidão, informaram o rei do sucedido; e o rei, escandalizado com o comportamento do seu funcionário, castigou-o de forma exemplar.

Essa parábola é um ensinamento sobre a misericórdia de Deus. Mostra como, na perspectiva de Deus, o perdão é ilimitado, total e absoluto. Temos uma dívida impagável para com Deus e mesmo assim Deus usa de misericórdia para conosco e perdoa. Não podemos agir como o funcionário do rei que foi perdoado de uma dívida impagável, mas que foi incapaz de usar da mesma misericórdia para perdoar uma dívida infinitamente menor.

O Evangelho deste domingo é sobre a necessidade de perdoar sempre, de forma radical e ilimitada. Trata-se de uma das exigências mais difíceis que Jesus nos faz.