26º Domingo do Tempo Comum

(Mc 9,38-43.45.47-48)

“É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno”

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum nos mostra varias sugestões para que aqueles que creem possam purificar a sua opção e integrar a comunidade do Reino. Uma das sugestões apresentadas é a de que os seguidores de Jesus sejam capazes de reconhecer e aceitar a ação do Espírito através de tantas pessoas boas que não pertencem a nenhum movimento da Igreja, mas que são sinais do amor de Deus para conosco.

A primeira leitura é retirada de Nm 11, 25-29. O Livro dos Números tem esse nome na versão grega, pelo fato de o livro começar com uma lista de recenseamento onde são dados os números de membros de cada tribo de Israel. O livro apresenta um conjunto de tradições – sem grande preocupação de coerência e de lógica – sobre a estada no deserto dos hebreus libertados do Egito. Estas tradições são usadas com fins catequéticos.

O episódio que nos é proposto pela liturgia acontece pouco depois da partida do Sinai. Num lugar chamado Tabera (cf. Nm 11,3), o Povo revoltou-se por não ter comida e murmurou contra Iahwéh. Moisés queixou-se ao Senhor de não conseguir aguentar o fardo da condução deste Povo rebelde (cf. Nm 11,11-15); então, Iahwéh propôs a Moisés escolher setenta anciãos que, depois de ungidos pelo Espírito de Deus, ajudariam Moisés na tarefa de conduzir o Povo pelo deserto (cf. Nm 11,16-24). É precisamente neste ponto que começa o nosso texto.

O excerto bíblico conta que Eldad e Medad, dois anciãos que estariam na lista dos setenta escolhidos, mas que não estavam presentes no momento da recepção do Espírito, começaram também a profetizar. Josué não aceita essa situação, pois acredita que se trata de um abuso intolerável, que põe em xeque as competências da hierarquia estabelecida e propõe a Moisés reaja contra os dois. A resposta de Moisés é a resposta de um homem livre e de espírito aberto, que não está preocupado com o controle dos mecanismos de poder, mas com a vida e a felicidade do seu Povo: “Estás com ciúmes por causa de mim? Quem me dera que todo o Povo fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles”

Desta primeira leitura nota-se que a comunidade do Povo de Deus é a comunidade do Espírito. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está vivo e presente naqueles que abrem o coração a Deus e que se comprometem com Jesus.

O Evangelho é retirado de Mc 9,38-43.45.47-48. Essa perícope ainda situa a ação de Jesus em Cafarnaum. Jesus está na cidade onde mora com seus discípulos. A caminhada para Jerusalém está próxima e os discípulos sabem que está para chegar tempos decisivos para o projeto em que estão envolvidos.

Apesar dos discípulos terem optado por Jesus eles continuam a dar mostras de não terem compreendido os valores do Reino. Para eles, o seguimento de Jesus é uma opção que deverá traduzir-se na concretização de determinados sonhos de poder, de grandeza e de prestígio. Por isso, sentem-se inquietos e ciumentos quando encontram algo que possa colocar em xeque os seus interesses, a sua autoridade, os seus “privilégios”. Os discípulos buscam calar algumas pessoas que pregavam em nome de Jesus, mas não pertenciam ao grupo.

O Evangelho deste domingo apresenta-nos um grupo de discípulos ainda muito atrasados na aprendizagem sobre o discipulado. Eles ainda pensam conforme a lógica do mundo e não conseguem se libertar dos seus interesses pessoais, dos seus sonhos de grandeza e poder. Eles não entendem que, para seguir Jesus, é preciso cortar com certos sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a radicalidade que a opção pelo Reino exige.

As dificuldades que estes discípulos apresentam no sentido de responder a Jesus não nos são estranhas, pois elas também fazem parte da nossa vida e por vezes agimos como aqueles discípulos de Jesus. Assim, a instrução que, neste texto, Jesus dirige aos seus discípulos serve-nos também a nós. As propostas de Jesus destinam-se aos discípulos de todas as épocas; pretendem ajudar-nos a purificar a nossa opção e a integrar, de forma plena, a comunidade dos discípulos de Jesus.