Diácono realiza experiência missionária na região amazônica: “Escola para a missão e a vida”

Entre os dias dias 15 de abril e 11 de maio o Diácono Jeferson Djalma Coimbra esteve em uma experiência missionária na cidade de Óbidos, no oeste do Pará. Uma vivência única e singular, segundo o jovem. “Esta breve partilha tem como objetivo apresentar algumas percepções e reflexões suscitadas pela vivência na Paróquia São Martinho de Lima, na cidade de Óbidos, no oeste do Pará. Compartilho-as porque, sendo esta uma atividade nascida do envio missionário da Igreja, também as graças e os ensinamentos dela decorrentes pertencem à própria Igreja e, de algum modo, a ela devem retornar, não sendo conservados apenas como posse exclusiva daqueles que os vivenciaram. Além disso, tal experiência confirma e fortalece a consciência da importância da promoção dessas iniciativas que, nos últimos anos, vêm se consolidando como parte significativa do caminho formativo dos seminaristas e diáconos de nossa Igreja local de São João del-Rei”, destaca o Diácono Jeferson que apresenta, em tópicos, relatos destes 26 dias de atividades.

 

PARÓQUIA SÃO MARTINHO DE LIMA: UMA IGREJA MISSIONÁRIA NO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA

Pela segunda vez nos últimos anos, o território escolhido pela Diocese de São João del-Rei para a realização dessa atividade missionária foi a Paróquia São Martinho de Lima, situada na cidade de Óbidos/PA, no coração da Amazônia, às margens do Rio Amazonas. Óbidos é um dos sete municípios que compõem a Diocese homônima, pastoreada por Dom Bernardo Johannes Bahlmann, que generosamente acolheu o pedido para a realização dessa experiência de convivência na realidade local, marcada tanto pelos desafios pastorais próprios da região amazônica quanto pela riqueza humana, cultural e espiritual de seu povo.

Formada por 31 comunidades — cinco localizadas na área urbana e 26 distribuídas pelo interior do município —, a jovem comunidade paroquial de São Martinho de Lima é administrada, desde 2015, por sacerdotes da Arquidiocese de Juiz de Fora, como expressão concreta do projeto “Igrejas-Irmãs”, promovido pela CNBB. Trata-se de uma rede de solidariedade eclesial por meio da qual Arquidioceses e Dioceses do Brasil partilham dons espirituais, humanos e materiais com Igrejas locais que enfrentam maiores limitações para o exercício de sua missão evangelizadora.

Atualmente, a paróquia está sob os cuidados do Padre Leonardo Loures Valle, jovem sacerdote que, em seus onze anos de ministério presbiteral, dedicou a maior parte de sua vida sacerdotal a essa frente missionária. Seu trabalho é marcado pelo ardor apostólico, pela responsabilidade pastoral e por uma sincera abertura ao espírito missionário da Igreja. Muito estimado pelo povo, o presbítero empenha-se na celebração dos sacramentos, na dinamização e na organização da vida pastoral das comunidades, tanto no âmbito eclesial quanto em projetos sociais, somando seu serviço ao trabalho generoso de sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e numerosas lideranças leigas que atuam — ou já atuaram — junto ao povo de Deus.

A paróquia conta ainda com a preciosa presença das Irmãs da Congregação de Santa Catarina, cujo testemunho simples e alegre manifesta, no cotidiano das comunidades, a beleza da vida consagrada vivida em chave missionária, no exercício de seu carisma na área da saúde, da educação e da pastoral social. Conta também com outros sacerdotes que colaboram na dinâmica paroquial, como o Padre Geraldo Rezende da Silva. Juntos, sacerdotes e religiosas procuram caminhar com proximidade junto ao povo, por meio das celebrações e atendimentos nas inúmeras comunidades, das visitas às famílias, aos enfermos e aos idosos, bem como da promoção da fé e da vida através da catequese, das formações e dos diversos serviços pastorais.

Merece especial destaque a atuação dos leigos e leigas nas diversas comunidades. A Diocese possui um histórico significativo de formação dessas lideranças para a evangelização, permitindo que assumam, com dedicação e senso eclesial, papéis de liderança comunitária nas mais variadas ações pastorais, sobretudo nas localidades do interior, onde a presença do sacerdote ou das religiosas ocorre apenas de forma periódica.

A simplicidade de seus rostos e moradias permite que ganhe realce a santidade de tantos homens e mulheres de fé que fazem a Igreja avançar por meio de seus pés no solo e nas águas da Amazônia. Vestidos com suas camisas estampadas com a face de seus padroeiros, servem com alegria e profundo acolhimento aos que chegam, não permitindo que os desafios os impeçam de celebrar e testemunhar a fé. No dizer de uma senhora idosa, em uma comunidade que abriu as portas de seu lar para uma visita, o povo pode sentir a carência de tudo, menos da presença de Deus em suas vidas.

 

UM TERRITÓRIO MISSIONÁRIO

Concretamente, as atividades deste período de missão consistiram na realização de visitas aos enfermos e idosos da área urbana, na celebração em comunidades do interior e da cidade, na administração do Sacramento do Batismo a algumas crianças e na convivência com as diversas pessoas das comunidades, conhecendo a realidade local na companhia do pároco e de outros colaboradores por meio das diversas visitas. Mas o que faz dessa realidade um verdadeiro território de missão?

Certamente não apenas as distâncias geográficas, embora estas representem um desafio significativo. O vasto território paroquial, com numerosas comunidades espalhadas pelo interior, exige longos deslocamentos, frequentemente realizados em condições precárias de estrada ou, em muitos casos, exclusivamente por meio dos rios e lagos que cortam a região amazônica.

Entretanto, o que verdadeiramente caracteriza essa realidade como missionária são os desafios humanos, sociais e eclesiais ali presentes. A Igreja convive de perto com as dores do povo da Amazônia, marcado pelo reduzido número de sacerdotes e religiosos diante da grande demanda pastoral das comunidades. Somam-se a isso as situações de pobreza, a vulnerabilidade social das famílias, a carência de políticas públicas eficazes — especialmente na área da saúde — e também as constantes ameaças ambientais decorrentes da exploração da região amazônica.

Apesar dessas dificuldades, percebe-se a presença de uma Igreja simples, mas profundamente viva, alegre e acolhedora, marcada pela proximidade, pelo amor a Jesus Cristo e pelo compromisso com a promoção da vida em todas as suas dimensões. Existe um forte senso de solidariedade eclesial e de cooperação entre as comunidades, no qual cada pessoa busca colocar seus dons a serviço da evangelização e do bem comum.

Por isso, inúmeras são as luzes de esperança que brilham em meio a essa bonita face da Igreja. Vê-se uma presença significativa da juventude nas celebrações e atividades, muitas delas subsidiadas pelos projetos sociais e ações voltadas para os jovens que acontecem na paróquia, conforme se discorrerá abaixo. Também se destacam o despontar de vocações, o grande protagonismo leigo, a expressiva procura pelos Sacramentos da Iniciação Cristã por parte dos adultos e outras conquistas das comunidades, que dão passos importantes em sua história.

Exemplo disso foi a bênção da Igreja de São José Operário, em um bairro periférico da cidade de Óbidos, ocorrida no dia 28 de abril, em Santa Missa presidida por Dom Bernardo, marco significativo para as pessoas do bairro que se dedicaram por anos à edificação do templo dedicado ao guardião da Sagrada Família.

 

EVANGELIZAÇÃO, CULTURA E PROMOÇÃO HUMANA

Outro aspecto que chama atenção é a capacidade que a Igreja local possui de evangelizar valorizando profundamente a cultura e a identidade do povo amazônico. A fé se expressa em sintonia com os símbolos, a música, a arte, a riqueza das belezas naturais da Casa Comum e as tradições locais, favorecendo uma evangelização encarnada e próxima da realidade das pessoas. Projetos sociais, iniciativas educativas e expressões culturais ligadas à religiosidade popular tornam-se importantes instrumentos de promoção humana e anúncio do Evangelho.

Grande exemplo disso é o Grupo Folclórico Coração da Amazônia, um coletivo cultural que, desde 2024, promove, por meio da dança do carimbó, a valorização da cultura local, a socialização dos jovens e sua formação integral. Além dos ensaios diários no período que antecede o Festival de Carimbó, tradicional festividade da cidade, semanalmente se promove a abordagem de temáticas ligadas à saúde mental, à busca de relações humanas saudáveis, ao valor do estudo e da espiritualidade. Coordenado pelo Padre Leonardo Loures e por um grupo de pessoas atuantes na comunidade, o grupo reúne cerca de 80 jovens e tem impactado positivamente a comunidade nos últimos anos, apresentando o carimbó em festivais que celebram a fé cristã, as belezas naturais, a cultura e a gastronomia paraense.

 

Outro projeto de grande envolvimento na comunidade paroquial é a Via-Sacra Jovem, que acontece todos os anos na Sexta-feira Santa, com a encenação dos principais momentos da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. O evento já ocupa lugar cativo no coração da comunidade e tem se destacado como espaço de evangelização e de envolvimento da juventude na Igreja, revelando o esforço da comunidade eclesial em integrar fé, cultura e dignidade humana.

A atuação social da Igreja também se mostra indispensável diante das necessidades enfrentadas pela população. Em muitos lugares, a presença eclesial representa não apenas assistência espiritual, mas também apoio humano, escuta, acolhimento e defesa da dignidade das pessoas mais vulneráveis. Vê-se a presença da Fazenda da Esperança com uma bonita missão de reabilitação das pessoas. Ainda, um forte protagonismo eclesial na área da saúde, sobretudo ligado à Santa Casa da cidade de Óbidos. Grande também é a ação da Pastoral da Criança, com núcleos formados em quase todas as comunidades e a atuação de lideranças no acompanhamento às gestantes e às crianças nos primeiros anos de vida, orientando as famílias nos cuidados básicos de saúde, nutrição e desenvolvimento infantil.

 

A VIDA MISSIONÁRIA COMO TESTEMUNHO EVANGÉLICO

A experiência missionária naquela realidade evidencia ainda como a vida sacerdotal e religiosa encontra, na simplicidade e na proximidade com o povo, um caminho fecundo de vivência do Evangelho. A missão exige disponibilidade, desapego, espírito de serviço e capacidade de adaptação às mais diversas circunstâncias, tornando-se verdadeira escola de humanidade e discipulado.

Ao mesmo tempo, testemunha-se como o povo simples evangeliza também os missionários, através da fé sincera, da generosidade, da hospitalidade e da capacidade de perseverar com esperança mesmo diante das dificuldades cotidianas. Essas experiências retomam o conceito de caridade pastoral, que deve fazer parte do caminho da Igreja, sobretudo na vida daqueles que exercem um ministério de pastoreio. Essa caridade deve levar o missionário a tornar-se mais parecido com aqueles a quem serve, buscando uma vida simples, sóbria e sabiamente despojada, para que se coloque em comunhão real com a vida das pessoas. O amor ao povo se demonstra em formas concretas de proximidade.

COMO AJUDAR?

Diante dessa realidade, muitos podem se perguntar de que forma colaborar com a missão da Igreja na Amazônia. A primeira e mais importante ajuda continua sendo a oração: rezar pelos missionários, pelas comunidades e pelas vocações é participar espiritualmente da obra evangelizadora da Igreja.

Além disso, as campanhas solidárias, as coletas promovidas pela CNBB com estas finalidades, o apoio material às Dioceses, o incentivo às vocações e a divulgação da realidade amazônica em nossas comunidades tornam-se formas concretas de comunhão e corresponsabilidade eclesial.

Ao término dessa experiência, permanecem profundas marcas espirituais e humanas. Fica a gratidão pelo testemunho de uma Igreja simples e missionária, que encontra na fraternidade e na fé sua força cotidiana. Permanece também a certeza de que a missão não é uma realidade distante ou reservada a alguns, mas dimensão constitutiva da própria identidade da Igreja. A Amazônia, com suas dores e esperanças, continua recordando à Igreja a beleza e a urgência permanente da missão.

 

Diácono Jeferson Djalma Coimbra

Diocese de São João del-Rei/MG