A mãe do condenado

Pouco se sabe respeito de Maria, quase nada. A impressão que se tem é que ela só existe na tradição cristã à luz de seu filho. Os próprios evangelhos que aludem à sua discreta e fiel presença são avarentos em nos prodigalizar elementos que possam dar base para nossa imaginação. Apoiamo-nos no cenário que nos oferecem os historiadores a respeito da vida nas aldeias e das mulheres naquele tempo, mas corrermos o risco de imprecisões.
Jesus e Maria – o evangelho de João atinou bem com este duo do silêncio.

Desde o início do livro (cap. 2) estão os dois, admiráveis colunas, de pé como um pórtico de entrada. Eram as bodas de Caná, o milagre do vinho. “Eles não têm mais vinho”, eles perderam a alegria. “A hora ainda não tinha chegado” e, no entanto, João reúne os dois, para abrir o Evangelho com a promessa de uma renovação, o vinho novo, o vinho da festa, o cálice da nova aliança. Já é a Eucaristia.

Vamos encontrar os dois, face a face, nas últimas páginas do livro, no Gólgota. “Pai, chegou a hora…”, é o sangue e a morte, “o sangue da nova aliança”. Entre o relato de Caná e o do Gólgota, João não faz mais alusão a Maria. Trata-se de um procedimento bastante bíblico que apresenta o herói apenas no começo e no fim da obra. Certamente estão presentes em toda a obra.

Tudo nos mostra a que ponto o evangelista havia compreendido o lugar de Maria, junto de seu Filho, no centro do combate e se insisto nela, Maria, mulher das dores, dos tormentos, a mãe do condenado é que compreendermos melhor o coração de um homem quando se olha sua mãe.

Sabemos perfeitamente que todos os que fazem progresso na santidade e penetram na intimidade do Deus de Jesus Cristo experimentam necessariamente a provação da fé, e conhecem, em diferentes graus, a dúvida e o medo e a vertigem do absurdo e do nada. Maria é aquela que diz com seu filho o “sim” mais total.

Disseram-lhe tantas maravilhas a respeito do Messias que ela o esperava, com todos os judeus de seu tempo, como um glorioso libertador que daria a Israel o domínio sobre mundo.

Durante toda a sua vida, essa concepção mostrar-se-á incompatível com este filho desconcertante que se embrenha numa terrível aventura. Ela tem medo, mas crê.
Desde os primeiros dias, quando ela apresenta Jesus no templo, o relato nos faz compreender claramente que esse menino fará sofrer sua mãe. “Ele será sinal de contradição… será como uma espada que atravessará teu coração…”(Lc 2,35).

Um pouco mais tarde, ela reencontra no templo seu filho que durante três longos dias havia se perdido no meio da multidão. Então como todas as mães do mundo, mostra-se apreensiva e preocupada. Não é aqui o lugar de fazer a exegese da estranha resposta que Lucas coloca nos lábios do menino Jesus, mas ressalto a reflexão tão humana, emocionante que ele acrescenta a propósito de seus pais: “Eles não compreenderam…Maria guardava estas coisas no seu coração” (Lc 2, 50-51).

Podemos bem imaginar um questionamento silencioso, o olhar admirativo e o debate secreto: “Quem é meu filho?” Não haverá outra resposta, senão a da fé. Talvez ela tenha estado junto com seus familiares que tentaram fazer com que Jesus refletisse e voltasse para casa: “… saíram para detê-lo, porque diziam: ‘Enlouqueceu’” (Mc 3,21).

Nesse contexto podemos também compreender todo o alcance da frase: “Minha mãe, meus irmãos, são todos os que ouvem a palavra de Deus…” (Lc 8, 21). Ela que tinha dito: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Esse homem desconcertante, apaixonadamente entregue à sua missão, ela crê nele.

Ele reúne multidões, prega uma estonteante doutrina pela qual se fica sabendo que os pobres são os filhos queridos de Deus. Maria acredita em sua palavra. Ele afronta os poderosos e dá vazão à sua cólera: ela acredita. Ele é caçado, deixado de lado por seus melhores amigos. É preso, insultado, torturado, condenado à morte: ela crê. Sob seus olhos ele é crucificado: ela crê.

Quando está no limite de suas forças, no delírio da agonia, quando tudo chega a seu termo, ele grita: “Meu Deus, por que me abandonaste?” Ela ali está, ao pé da cruz, de pé.
Diante de seu filho coberto de sangue, que morre todo dilacerado, ela crê ainda, crê apesar de tudo. “mesmo assim”. Sua fé é sua ternura. Sua fé é sua dor. Ela acreditou, “mesmo assim”.

“Maria, mãe do condenado, o que fizeram de ti ao longo dos tempos não pode nos satisfazer, nem as estátuas, as pinturas nem as piedosas ladainhas. Para saber quem tu és será preciso ouvir teu silêncio e o murmúrio dos teus lábios quando tu dizias seu nome. E ler nos teus olhos quando tu o olhavas. Atravessaste a noite, a noite obscura da terra, nossa noite. Tu trazias em ti a luz eterna.

Ninguém saberá como tu quem é este homem. Ele vivia de ti e em teus braços dormia. Ensina-nos a reconhece-lo quando a vida falha com suas promessas, como tu o reconheceste no homem torturado que foi arrastado para o Gólgota. Ajuda-nos a acreditar nele “assim mesmo”.

Quando se ama, quando se crê muitas vezes é o “assim mesmo” que conta. Maria, Maria, Mãe do condenado, dize-nos o que tu fazias quando não havia mais nada a fazer. Ajuda-nos a dizer sim, como tu, a teu Filho porque cada dia ele se encarna em nossa própria vida”.

 

Texto de Jacques Leclercq | Debout sur le soleil

Éditions du Seuil, Paris, 1980, p. 177-181

Adaptação de Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM , Petrópolis, RJ

Produção da Série “Maria Mãe e as mães de todos nós” | maio 2021