Como viver a Semana Maior em tempos de pandemia?

Todas as semanas têm sempre 07 dias, mas essa semana do Domingo de Ramos até a Ressurreição é chamada de “Semana Maior”. Não porque tem dias a mais, mas pela celebração do mistério que ela encerra. Celebração de um Deus que se faz humano para morrer e ressuscitar por nós, de um Deus-Pai que nos envia seu Filho como Vida e não como morte, como Esperança e não como decepção, como Misericórdia e não como juiz para condenar.

Nesses tempos de Covid-19 o cardeal arcebispo de Milão, em entrevista, disse: “é coisa de pagão pensar que Deus manda flagelos”. Sim, nesse tempo de fechamentos e de medos do presente e do futuro, “é coisa de pagão pensar em um Deus enraivecido que manda castigos e só pode ser acalmado com a oração. Fico arrepiado quando escuto alguns padres dizerem que foi Ele quem mandou o flagelo do vírus. Se foi Deus quem mandou o castigo pelos nossos pecados então a oração não adianta para pedir a Deus que retire um castigo que Ele mesmo mandou. Não temos um Deus enraivecido que deve ser acalmado. Isso é uma imagem pagã que infelizmente povoa a cabeça e o coração de muitos cristãos. O que então pedir ao Deus de Jesus Cristo? Que Ele nos dê o dom do Espírito para que tenhamos força, inteligência e solidariedade para atravessar esse momento e tentar vencer o mal com o bem”.

Como vivenciar essa Semana Maior de 2020?

Uma Semana Maior para ir purificando nossa fé com a convicção de que “não é o momento de milagreiros ou de procissões para curar o vírus, ou coisas desse tipo. Não derrotamos a pandemia com a fé”.

Além das mortes e sequelas que acontecerão, há outro risco além do Covid-19 do qual devamos estar prevenidos que é a fraqueza da fé. Então nossa fé deve crescer na direção de sermos adultos em Cristo sem desfalecimentos, buscando ser alimentada sempre na Palavra de Deus e pela Palavra de Deus.

Uma fé adulta conforme as palavras do Papa Francisco comentando a morte de Lázaro no sepulcro. “Somos chamados a remover as pedras de tudo aquilo que fala de morte: a hipocrisia com que a fé é vivida, é morte; a crítica destrutiva contra os outros, é morte; a ofensa, a calúnia, é morte; a marginalização do pobre, é morte”. O Senhor nos pede para removermos estas pedras do coração, e a vida então voltará a florescer ao nosso redor.

Uma Semana Maior para afastarmos o pânico. “Não tenham medo!”, disse Jesus muitas vezes; e repetido pelo papa Francisco naquele intenso dia 27 de março. Uma Semana Maior para não demonizar ninguém.

O padre jesuíta dos Estados Unidos James Martin, S.J., que é consultor do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, narrou um fato. “Um amigo me disse que, quando um chinês idoso entrou em um vagão do metrô na cidade de Nova York, o vagão esvaziou, enquanto as pessoas começaram a gritar contra ele, culpando o seu país por espalhar o vírus. Chocado ele refletiu assim: Resistamos à tentação de demonizar ou de criar um bode expiatório, que aumenta em tempos de estresse e de escassez. A Covid-19 não é uma doença chinesa; não é uma doença ‘estrangeira’. Não é ‘culpa’ de ninguém. As pessoas que são infectadas não têm culpa. Lembremo-nos de que Jesus foi perguntado sobre um homem cego, ‘quem pecou, para que este homem nascesse cego?’. A resposta de Jesus ‘Nem ele, nem seus pais, nem Ninguém’ (Jo 9,2). A doença não é uma punição. Então não demonizar e não odiar.

Nessa Semana Maior ao sentirmos a ausência, por causa do coronavírus, de muitas celebrações canceladas, tenhamos sempre presente que o amor nunca pode ser cancelado. Façamos o que pudermos para ajudar os outros, especialmente os idosos, os deficientes, os pobres e os isolados. Tomemos as precauções necessárias; não sejamos imprudentes e não nos arrisquemos a espalhar a doença, mas também não esqueçamos o dever cristão fundamental de ajudar aos outros. “Eu estava doente, e você veio me visitar”, disse Jesus (Mt 25).

Nessa Semana Maior reavivamos nosso amor, com o coração aberto aos necessitados. Cuidemos seriamente de nossa saúde para não sermos infectados. Mas jamais deixarmos nossa consciência ser infectada.

Nessa Semana Maior podemos reaprender tantas coisas! Reaprender a estar nas nossas casas, e a sentir que o nosso prédio, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso país depende também de nós;

Reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de diversão e de evasão, mas como canais de presença, de solicitude e de escuta do irmão.

Reaprender o valor da saudação, o estímulo de um cumprimento, a incrível força que recebemos de um sorriso ou de um olhar. Podemos reaprender a não deixar ninguém na indiferença, descartado, a não tratar os nossos semelhantes, nossos vizinhos, como desconhecidos.

Nessa Semana Maior, tomando consciência de que somos sufocados pela ditadura do tempo, engolidos pelo tempo, correndo, correndo, vamos deixando o amor ao próximo para depois de amanhã. Vamos repetindo que “ tempo é dinheiro”… E então esse isolamento forçado pode nos levar a ir ao encontro daquilo que deixamos de dizer; daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz, nem vez; daquele agradecimento que ficou para trás pela pressa, pela falta de tempo.

Nessa Semana Maior, ao nos recordarmos dos mistérios centrais de nossa fé (Instituição da Eucaristia, a Morte e Ressurreição de Jesus Cristo) muitos se perguntam diante da pandemia do Covid 19: Onde está Deus?

O teólogo, padre Victor Codina responde que Deus está nas vítimas desta pandemia, está nos médicos e agentes de saúde que os atendem, está nos cientistas que buscam vacinas antivírus, está em todos os que nestes dias colaboram e ajudam para solucionar o problema, está nos que rezam pelos demais, está nos que espalham esperança. Quem sabe se essa pandemia nos ajude a encontrar Deus onde não o esperamos.

Nessa Semana Maior, deixo a todos o final de um artigo do Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, publicado no dia 30 de março p.p.

Na Bíblia ressoa 365 vezes esta saudação divina: “Não ter medo!”. É quase o «bom dia» que Deus repete a cada aurora. Repete-o também nestes dias de terror a todos nós cristãos. E para quem perdeu a fé, proporei a confissão do escritor García Márquez: «Desafortunadamente, Deus não tem um espaço na minha vida. Mas nutro a esperança, se Ele existe, de ter eu um espaço na sua».

Nessa Semana Maior, enchamos o espaço de nossas casas, de nossas vidas com nossas orações em família ou na solidão de nossas salas e quartos.