Eucaristia: alimento da vida e da partilha com os necessitados

Não devemos nos esquecer que foi em torno da mesa em um jantar que tudo isso aconteceu. A Eucaristia é a mesa da Vida. É a mesa da Refeição. É a mesa da Comunhão. É a mesa de Cada Um. É a mesa da Igreja. É a mesa da Libertação. É a mesa do Sacrifícioda Dor e da Morte. É a mesa da Esperança da RessurreiçãoAntes de entregar sua vida na morte, entregou-nos seu corpo no pão para ser comido, para ser alimento na caminhada. “Tomai e comei”… Tomai e bebei”. 

Eucaristia é isto. Em torno do Senhor reúnem-se os que são seus, os que querem se conhecer, amar e servir, os que querem pôr em comum seus próprios dons afim de que a mesa se enriqueça e todos aproveitem o que pertence a cada um. E nesse tempo da pandemia do Covid-19 não podemos, nem temos o direito de desvirtuar o sentido do que temos de mais sublime na Igreja (…).

Celebramos a festa da Eucaristia, essa refeição que tomamos juntos, que é uma refeição sacramental e que constitui o grande manifesto da presença de Jesus nas nossas vidas. Nós somos um povo gerado pela Eucaristia. Sem ela, não haveria nem Igreja nem cristãos. É graças ao continuar esta memória do que Jesus fez que podemos afirmar que nós vivemos.

Os gestos de Jesus são muito claros. Ele tomou o Pão e disse “Este é o meu Corpo que é dado por vós”. Tomou o Cálice e disse “Este é o meu Sangue derramado como sinal da Nova Aliança”E é a partir disso que nós O recordamos, que temos a garantia de que Ele está conosco, todos os dias até ao fim dos tempos. Porque aquele pão se faz Corpo de Jesus, e corpo de uma história que vivemos em relação a Ele. Porque aquele vinho se faz Sangue de uma Aliança que experimentamos de muitas maneiras, mas sempre com um vínculo vivo que nos liga a Deus.​​​​​​​​​​​

Dom José Tolentino Mendonça, atualmente Cardeal, diz “não imaginar a nossa existência fora do diálogo com esta mesa. Esta mesa é uma máquina para fazer irmãos, é um dispositivo de comunhão que erradica muros e desigualdades, é o umbral de um mundo novo”. Esta Mesa da Eucaristia nos leva a um compromisso, tão poeticamente descrito por Goretti Santos:

  • Se neste Pão Vos vemos no olhar da fé… Como fechar os olhos a Vós Inteiro no corpo e sangue das pessoas? Se nesta partícula de Pão tem Vosso cheiro, como não respirar os perfumes que guardam as noites e madrugadas de nosso planeta terra?
  • Se nesta fração de Pão, em meio ao clarão de luzes nos aqueceis… Como não tentar ao menos ser chama de vosso amor no mundo?
  • Se entre o verde da esperança e a coragem da luta vos fazeis em pedaços para todos nós... Como ficar parados sem nos partirmos em inúmeros fragmentos?
  • Se a cada ato de amor vosso mistério se renova… Como não estar abertos ao novo, a uma nova maneira de agir que nos leve para mais perto de Vós?
  • Se entre a Cruz e a Hóstia sois morte e ressurreição… Como não morrer e reviver plenamente e abundantemente livre no serviço a nossos irmãos? “

A mesa do Senhor é sempre mesa para o famintoNa Igreja perdeu-se esta inteligência eucarística própria dos primeiros cristãos… houve um divórcio entre a missa como rito e a partilha do pão com os pobres. Se no mundo há fome, se os pobres estão junto de nós e a Eucaristia não tem para eles consequências concretas, então a nossa Eucaristia é só cena religiosa e como diz São Paulo “o nosso já não é um comer a ceia do Senhor”.

​​​Por isso, se na nossa Eucaristia não participam os pobres, se não há partilha do alimento com quem não o tem, então a Celebração Eucarística fica vazia, porque lhe falta o essencial. Já não é a Ceia do Senhor, mas uma cena ritual que satisfaz as almas dos devotos, sendo uma grave diminuição do sinal querido por Jesus para a sua Igreja.

A mesa do Corpo do Senhor deve ser sempre mesa da Palavra e da partilha com os necessitados.​​​​​​​ ​A Eucaristia é isso e muito, muito mais, que não cabe em nossas palavras. A Eucaristia é tudo na nossa vida, não é amuleto.