Maria, o tempo, o medo e o Coronavírus

Maria é uma abertura que desemboca no horizonte chamado Jesus de Nazaré. Ela não é o horizonte mas sinaliza o modo de encontrá-lo. Ela não é o Caminho mas ensina como caminhar pelo Caminho que é Jesus.

Embora Maria sabia lavar, passar, cozinhar, arrumar a casa, cuidar de tudo que envolve a vida do lar, ela não admitia e nem permitia que o seu mundo fosse só isso. Ela é uma Mulher que sabe ler os acontecimentos da agenda da história e por isso ela não aceitava e não aceita o rumo que a história tomou.

Contemplar Maria é o sinal de que Deus se envolve com os fracos, os carentes, os necessitados da vida, com os invisíveis hoje mais visíveis do que nunca por causa do covid 19. Os sem teto, os moradores de rua sempre estiveram na rua mas a velocidade das compras, dos carros, do tempo veloz escondia todos eles de nossos olhos. No seu canto magnificat Maria canta que Deus é o Deus das transformações sociais e que Ele assume radicalmente a causa dos pobres e dos proletariados da história.

Diz o pastor presbiteriano Edmar Jacinto, em seu livro “Porque nós amamos Maria” : “ o que eu curto nisso tudo é que Maria não é só mulher do altar, mas da vida, da rua, do barro e do bairro, da esquina, da praça, ou seja, ela é mulher engajada, participativa, parceira de sonhos e parteira de uma tremenda conscientização. Ela é uma palestina que luta pela causa de Deus e pela causa dos homens.”

O TEMPO

Teresa Bartolomei, docente e investigadora na Faculdade de Teologia da PUC Portuguesa, em seu livro ‘Onde habita a luz?”, faz uma leitura interessante sobre o tempo.

O tempo na narrativa bíblica nos direciona para uma reflexão: os 40 dias e 40 noites em que Noé e todos aqueles que estavam com ele, isolados na arca, foram necessários para fazer com que «o ser humano mudasse». Será a auto-reclusão uma condição de mudança? «Noé, como uma grande parte da humanidade neste momento, escolhe se submeter a ficar em casa para se salvar a si próprio, os outros e o futuro da vida sobre a Terra. « É uma experiência existencial. Para “ficar de fora” do modelo de vida violento e irresponsável dos seus contemporâneos, Noé teve de fechar-se dentro de uma condição de isolamento espacial, social e existencial, e inventar, com a pequena comunidade biológica (os seres humanos e os animais) que lhe foi confiada, um novo modelo de convivência.

Neste momento não são só os indivíduos que estão fechados fisicamente em casa, é todo um sistema econômico e social, é o modelo de vida da civilização ocidental, com seu extraordinário poder de produtividade, que entrou em quarentena, ficando tudo suspenso por tempo indeterminado. Será que quando o nosso mundo reabrir as portas,quando pudermos voltar a pôr os pés na terra firme da normalidade,teremos aprendido a lição?”Que a conversão individual a formas de vida purificadas do consumismo desenfreado, capazes de uma sobriedade que respeita o direito de todos a desfrutar dos bens essenciais? O número 40, o mesmo dos dias do dilúvio, é o algarismo bíblico da penitência e da conversão, da prova e da suspensão da normalidade em vista a um novo início.

Esta condição de separação rompe a solidão do nosso destino individual:estamos em casa para salvaguardar não só a nossa vida, mas também a dos outros. Quando sairmos de casa e tivermos de arregaçar as mangas para nos reerguermos das ruínas, individuais e coletivas, seremos capazes de viver comunidade ? Esperemos que a resposta seja SIM.

O COVID 19

Todos em casa! Será que estamos tendo tempo? Escuto : “para enfrentar essa  quarentena fiz planos de colocar tudo em ordem, meus livros, papeis, roupas, ir pro computador verificar os arquivos que não abro há muito tempo, limpar aqueles cantinhos que a vassoura não vê, ouvir mais música, estudar algo  ou nova língua) fora das minhas atividades habituais, rever um filme que assisti há muitos anos, etc. etc… E ao chegar ao final do dia sinto que não sobrou tempo pra nada”.

Mas o que é o tempo? Santo Agostinho em seu célebre livro “As Confissões” escreveu : «Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei o que é; mas se alguém me pergunta o que é o tempo, não sei mais». Sabemos que somos feitos de tempo, de idades, de estações…. Sabemos que o tempo é a argila da vida. De fato, tudo o que é humano é feito de tempo, mas a experiência que mais vezes nos ocorre é a de não termos tempo. Só com tempo descobrimos tanto o sentido e a importância da nossa marcha ao lado dos outros, como o sentido da nossa própria caminhada interior. Sem tempo nós nos tornamos desconhecidos. Sem tempo falamos, mas não escutamos. Repetimos, mas não criamos. Sem tempo consumimos, mas não saboreamos. Por vezes um olhar rápido pode alcançar muita coisa, mas normalmente nos escapa o detalhe. E Deus habita o detalhe.

Mesmo no meio dessa pandemia o tempo em casa é tempo de Graça. Porquê ? Porque tempo de graça significa tempo gratuito, tempo não pago. Afinal nem todo “o tempo é dinheiro”. E para o tempo render é fundamental saber que nem todo o tempo tem de ser dinheiro.

Tempo de isolamento em casa, de isolamento não porque não faz isto e aquilo, mas porque deve ser tempo para crescer, tempo para saber esperar sem desanimar.  Tempo de graça, deve ser um tempo autodisciplinado que mantenha viva a capacidade de projeto ao longo de toda a vida. O tempo gratuito não se deve concentrar só em atividades. Saber estar, saber conversar à vontade, ser capaz de meditar, de observar e de relaxar diante da vida, vivida conosco mesmos, com Deus e com os outros. Vive-se em frustração quando se perde a esperança, a capacidade de esperar sabendo que cedo ou tarde o que esperamos virá. Viver esse tempo de quarentena é fundamental para reconquistar a confiança na vida e nos outros, em família.

Ter consciência de que essa pandemia é um tempo para reaprender tantas coisas. Oportunidade para nos reencontrarmos; compreendermos melhor o que significa ser uma comunidade. A nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas: todos estamos nas mãos uns dos outros, todos experimentamos como é vital esta interdependência, esta trama feita de reconhecimento, de dom, de respeito e solidariedade.

MARIA

O que Maria tem a nos ensinar, nesse tempo de ficar em casa, a partir do Evangelho, da Palavra de Deus e não de suas aparições?

Quando o anjo anunciou a Maria que ela ficaria grávida por ação do Espírito Santo ela ficou com medo! O anjo percebeu seu medo e lhe disse: “ Não tenhas medo, Maria ” (Lc.1,30 ). E desde aquele momento Maria enfrentou a vida com uma incrível coragem. Mas ela teve que se posicionar diante dos medos. Medo de não ser compreendida em sua gravidez. Medo pela mesquinhez das pessoas. Medo pela saúde de José. Medo pela sorte de Jesus. Medo de ficar sozinha depois da morte de José e da saída de Jesus para cumprir sua missão.

Quantos medos! Todos nós, como Maria, somos atravessados pelo medo que é o sinal mais claro de nossos limites. Medo do amanhã. Medo pelo filho que não encontra emprego e já tem mais de 30 anos. Medo pelo que possa acontecer com a filha adolescente que sai depois da meia-noite voltando pra casa de madrugada. Medo pela saúde que vai se acabando. Medo da velhice. Medo da morte… e o medo do coronavírus.

E diante de Maria a mulher que teve medo mas que se tornou a mulher da coragem poderemos seguir em frente rezando aquele salmo 22 que provavelmente maria recitou não sabemos quantas vezes: “Ainda que eu passe por vales escuros, não temerei mal algum porque Tu estás sempre comigo…enquanto durarem os meus dias”.

Maria mulher do medo, mas não da resignação, sempre reagiu com incrível determinação. Do dissabor do parto na “clínica” de uma estrebaria até o exílio forçado no Egito fugindo da perseguição de Herodes. Dos sacrifícios de uma vida obscura nos 30 e tantos anos de silêncio até o amargor do dia em que teve que fechar a porta da oficina de José, cheirando a verniz e recordações como viúva. Dos apertos em seu coração pelas notícias que circulavam sobre seu filho até o momento do calvário quando desafiando a violência dos soldados se colocou corajosamente aos pés da cruz.

Diante dos medos de nossos dias por causa do coronavírus, por causa de como vai ser o futuro depois da vitória sobre o vírus, o espelho de coragem deve ser sempre Maria.