Mesmo na pandemia, Piedade do Rio Grande mantém tradição e reforça a fé através da cultura

É através do som dos bastões e das gungas que Piedade do Rio Grande encerra o mês de maio. Realizada há 93 anos, a Festa da Congada e Moçambique faz parte do calendário piedense e é famosa por realizar um grande encontro de tradições, a fim de sustentar a fé dos povos africanos e seus antepassados. Neste ano as celebrações, realizadas entre sexta-feira e domingo, foram de forma restrita, devido a pandemia, mas a tradição se manteve firme através da fé e da cultura popular.

Sob a benção dos padroeiros São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Mercês, o grupo realiza sua manifestação de fé, repleta de cores e sons, totalmente fundada na memória da alma escrava e seus descendentes.

Segundo o pároco, padre Jorge Fonseca, a celebração vem reforçar a cultura e garra do povo piedense que realiza a festa mesmo em tempos de dificuldade. “Nós estamos celebrando uma festa em sinal de resistência, marcado pela coragem e pela força que atravessa as barreiras que nos assusta. Celebramos a memoria de um povo que retiram forças, também, na fé cristã. A pandemia também tem nos aprisionado. Não podendo ter a liberdade de estar nas ruas da cidade, fazendo essa festa acontecer, mas a fé e a força da nossa voz rompe as barreiras”, explica.

Durante a homilia da celebração de domingo, quando a festa reforça a Devoção à Nossa Senhora do Rosário, o sacerdote associou o sofrimento do negro com o olhar maternal de Maria. “No véu de Maria o negro encontra a resistência. Diante das limitações, Maria e o negro se fundem no sinal dessa resistência – ambos tiveram a coragem de assumir a superação em meio às dificuldades da vida. A túnica vermelha de Nossa Senhora (do Rosário) simboliza o sofrimento de Cristo s da humanidade, o sofrimento do negro, o sofrimento dos pobres de ontem e hoje”.

Segundo o Romário Tomé Sobrinho, a Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande é muito mais que um grupo, e sim uma família, que busca resguardar a cultura negra, resistir e sobre tudo lutar pelo direito de igualdade. “Nós só conseguimos fazer isso através da nossa fé que é demonstrada e vivida nos passos, nas danças, e nos cantos. O nosso corpo reza, se comunicando com o sagrado, isso fortalece, nos torna mais irmãos, nos anima a lutar diariamente por um mundo melhor. Creio que vivenciar Congada e Moçambique, especialmente pro povo de Piedade, é recarregar as energias é se reconectar”, explica o integrante e zelador do grupo.

Sobre a experiência de viver a festa de uma forma mais íntima, devido a pandemia, Romário explica que se trata de uma alternativa que o tempo propôs e que possibilita uma união ainda maior, proporcionando reflexão e resistência.

“A pandemia nos trouxe a ausência do calor humano que, na verdade, nos lembra que estamos vivos e que somos irmãos. Poder tocar nossos tambores, cantar nossos cânticos, gingar o nosso corpo, mesmo que distantes, e com todo cuidado possível. Foi com certeza uma grandiosa festa, talvez uma das mais profundas de nossa história. Foi tudo muito lindo, um olhar de saudade, vozes trêmulas de pedidos e agradecimentos, além de um ecoar que aqueceu o coração de cada um que, mesmo de longe, festejou com a gente. A festa aconteceu, nós estamos totalmente recarregados, radiando felicidade”, destaca.

26 anos. Natural de São João del-Rei. Secretário de Comunicação da Diocese de São João del-Rei, trabalhando no DEDICOM (Departamento Diocesano de Comunicação). Formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).