Muitas Marias, diversas dores

Os católicos celebram, anualmente, os últimos momentos de jesus na Terra, sua paixão, morte e ressurreição. É um conjunto de celebrações que nos permitem fazer memória de fato acontecido a dois mil anos que mudou a História da humanidade. Esse conjunto de celebrações acontece na semana que chamamos de Santa.

Entre as celebrações desse tempo temos a reflexão sobre as sete dores de Maria, o setenário das dores. Celebração comovente que tenta nos remeter ao passado imaginando o quanto Maria sofreu desde o nascimento do menino até a glória da sua ressureição.

Devemos tomar muito cuidado para não romantizar tais fatos e esquecermos dessa realidade da família de Nazaré que é a realidade de muitas famílias hoje, nossos vizinhos, amigos, familiares e pessoas mais distantes que não temos muito contato.

Na pandemia do coronavírus, no Brasil, mais de duzentos e noventa mil pessoas perderam suas vidas. Não são apenas números a serem contabilizados pelas estatísticas, mas são Histórias interrompidas, sonhos desfeitos, pais sem filhos e filhos órfãos de pais.

Quantas Marias, como a Maria de Nazaré sentem uma espada de dor traspassar seu coração. Marias mães, irmãs, esposas, cunhadas, amigas, colegas de trabalho, filhas, sobrinhas, vizinhas, profissionais de saúde e tantos outros laços rompidos entre quem se foi e quem ficou. De alguma forma essas pessoas foram atingidas pela dor da perda de alguém que muito amava.

Quantas Marias sofrem ao verem, como que a cruz, nas costas de alguém que está sofrendo em um hospital infectado pelo vírus, vivendo no limiar entre a vida e a morte. Nesse momento a vida parece se abreviar, o coração está dolorido, muitas lágrimas correm pelo rosto com a incerteza do presente e do futuro.

Quantas Marias sonharam com a maternidade e, hoje, aguardam uma boa notícia do filho, ainda indefeso, que contraiu o vírus e não está nesses braços que tanto querem acariciar, nos seios que desejam amamentar, no carinho que, mães, estão ávidas a dar para esse novo ser.

Quantas Marias que, ao lado do seu José, lutaram tanto para que sua família sempre estivesse a salvo das amarguras da vida, mas hoje amargam a dor da saudade daqueles que tanto amaram. Mesmo sendo impensável que um filho vá antes dos pais, esses pais ficaram sem seus filhos, o coração da Marias e seus Josés estão dilacerados e doloridos por tamanha perda.

Quantos filhos queriam um pouco mais da presença de sua Maria, Mônica, Júlia, Tereza, Madalena, Antônia, Perpétua….., e também do seu José, João, Pedro, Paulo, Jorge, Luiz, Raimundo…., mas a pandemia os levou, deixando órfãos, adultos e crianças. Quantas dores nesses corações que não querem explicação pelo acontecido, mas precisam sentir sua dor para tentar se livrar dela assim que possível.

Refletir sobre as dores de Maria é fazer uma ponte com nossas dores que, como espada traspassam nosso coração. Nos torna impotentes diante das dificuldades que a vida nos impõe, nos ajuda a valorizar aquilo que merece valor e nos apresenta a vida como algo magnífico, um presente de Deus.

Quem sabe nessa celebração da Semana Santa, ao refletirmos sobre as dores de Maria Santíssima, Vamos permitir com que a sensibilidade permeie nosso coração e possamos prestar mais atenção ao que acontece à nossa volta.

Maria Santíssima não imaginava o Domingo da Ressureição. Mas ele aconteceu. Nós, muitas vezes, mergulhados no sofrimento de tantas dores, podemos esquecer que tudo vai passar e, como no Domingo da Ressureição, a vida voltará a brilhar. Dessa forma, cada pessoa precisa fazer a sua parte para que a vida se prolongue um pouco mais, até o dia do
desfecho natural.