Para uma ecologia integral, uma humanidade nova

“Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais” (Papa Francisco, LS, 119).

Um dos temas que mais tomam conta dos nossos jornais e noticiários de hoje são aqueles relacionados ao meio ambiente e preservação da natureza. Na Igreja, também não difere quando no anúncio profético de nossos pastores o cuidado com a natureza, nossa casa comum. No mundo atual, as diversas atividades de desenvolvimento tecnológico e científico levantam questionamentos que tocam a humanidade como um todo. Esses partem desde uma crise ecológica, mau uso do poder até ao perigo da subsistência humana no planeta.

 

A preocupação com as transformações sociais aceleradas já foi acenada pela Igreja ainda quando o Papa Paulo VI escreveu a Octagesima Adveniens, em 1971: “não só já o ambiente material se torna uma ameaça permanente, […] é mesmo o quadro humano que o homem não consegue dominar, criando assim, para o dia de amanhã, um ambiente global, que poderá tornar-se-lhe insuportável. Problema social de envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana” (OA, 21).

Acompanhando o processo histórico, fica cada vez mais evidente que só existe uma crise ecológica porque existe uma crise humanitária. A longos tempos o homem age sobre a natureza de modo ilimitado, retirando-lhe não o sustento somente, mas o lucro e a vantagem, reflexo, talvez, de uma filosofia baconiana (ou de simplesmente uma ambição interna desordenada do homem). Esse pensamento é arraigado na sociedade atual, que busca definitivamente a exploração de áreas naturais para fins comerciais e lucrativos.

Nas discussões modernas, entretanto, busca-se constantemente superar uma visão dominadora da natureza tendo em vista uma nova concepção de relação com o ambiente que nos cerca. Diante de catástrofes e desastres que ocorrem por culpa da ação humana, o Papa Francisco propõe uma ecologia que seja integral, em constante diálogo com as dimensões humanas e sociais. Emerge assim o pensamento de Hans Jonas em sua ética da responsabilidade, que busca de modo positivo estabelecer que toda a ação deve ter em vista que os efeitos causados sejam em prol da permanência humana sobre a Terra.

Em uma mesma perspectiva, que a ação do homem não ponha em perigo as condições necessárias para a conservação humana. Essa ética da responsabilidade está longe de apenas defender a existência da espécie humana, pois exige que a dignidade do homem seja respeitada em toda a sua integralidade. Vale relembrar que a tragédia de Brumadinho, que janeiro passado completou quatro anos, foi um sinal de alerta de que a ação humana exploratória e sem responsabilidade é capaz de atentar contra a vida. Não restrito a isso, a tragédia Yanomami divulgada pelos noticiários refletem os frutos de uma exploração da natureza sem humanidade para conquistar a riqueza.

Nesse sentido, mais do que uma ecologia ambiental, Papa Francisco argumenta que é preciso uma ecologia integral, que deve estar indissociável do bem comum. Pois, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral” (EG, 203). O problema da sustentabilidade tanto em voga é bem mais radical do que podemos supor a um primeiro olhar. Na Laudato Si fica evidente que “sem curar todas as relações humanas fundamentais” não se pode construir uma ecologia integral, isso porque é o ser humano que pela marca do pecado e da divisão age sobre o mundo.

Em Gênesis, a compreensão relacional entre Caim e Abel é a de que a inveja e a cobiça levaram Caim a tirar, por suas próprias mãos, a vida de seu irmão. O que o Senhor impele a Caim está estritamente ligado à terra: “Que fizeste? Do solo está clamando por mim a voz do sangue do teu irmão! Agora serás amaldiçoado pelo próprio solo […]. Tu virás a ser um fugitivo, vagueando sobre a terra” (Gn 4,9-12). O Papa Francisco nos afirma que é o descuido da responsabilidade, do cuidado e da proteção de nosso irmão, que tantas vezes sofre as injustiças dos poderosos deste mundo, que destrói o relacionamento consigo mesmo, com o outro, com Deus e com a terra. É evidente, portanto, que o cuidado de nossa própria vida e a preservação de nossa casa comum está intimamente ligado à fraternidade e à justiça, compromissos de todo cristão.

Então, quais são os caminhos propostos pelo Papa a ser seguido?

É necessária uma conversão no estilo de vida, que não perpetue as estruturas de um mundo velho e decaído pelas próprias forças. O chamado radical do Evangelho é também para aceitar que o Reino dos Céus se pré-anuncia quando deixamos as rédeas do poder e da ambição para dar lugar à Liberdade e Fraternidade divinas. A palavra do Papa é que nos encoraja a seguir adiante na construção de um mundo melhor e mais ecológico pela nossa ação diária. Isso implica em uma nova forma de relacionamento com os bens materiais, sim, mas a própria relação com as motivações consumistas e tecnológicas do mundo atual, com a moda, com o descarte, com os outros. O modo pessoal de se relacionar com as pessoas, com o mundo e com Deus é o que pode tornar o ambiente mais saudável e favorável à vida.

Se queremos uma vida que valorize a dignidade dos homens e mulheres hoje é preciso uma consciência ecológica e integral e uma ética da responsabilidade no dia-a-dia como remédio para um futuro seguro e próspero a caridade e a fraternidade, elementos de uma sociedade saudável e verdadeiramente comprometida com o Evangelho. Pois conforme nos exorta o Papa Francisco: “Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial de uma existência virtuosa” (LS, 217).

1. PAPA FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Paulinas: São Paulo, 2015.
2. PAPA FRANCISCO. Evangelii Gaudium: a alegria do Evangelho. Paulinas, São Paulo, 2013.
3. PAPA PAULO VI. Octogesima Adveniens. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/apost_letters/documents/hf_p-vi_apl_19710514_octogesima-adveniens.html>.
4. NODARI, Paulo César. Casa comum ou globalização da indiferença?. Paulus: São Paulo, 2022.