Quando os sinos chamam

Foto: Sidney Portela Lima Saab

No dia 24 de setembro, celebra-se a festa de Nossa Senhora das Mercês (bondades, favores, misericórdias). A devoção é antiga, remonta ao século XIII, e tem sua motivação nas aparições de Nossa Senhora a São Pedro Nolasco, na Espanha, dando-lhe a incumbência de libertar os cristãos escravizados na África. Após a experiência mística, o santo vendeu seus bens e reuniu outras pessoas, formando um grupo para impulsionar a missão recebida da Virgem Maria.

Os integrantes daquela nova Ordem nascente, chamada de “Mercedários”, entenderam de tal modo o empenho a que eram convidados, que acrescentaram um quarto voto aos já estabelecidos aos religiosos: dedicar a vida toda para libertar escravos e, até mesmo, comprometer-se a ficar em lugar de um prisioneiro quando este estivesse em perigo de perder a fé e o dinheiro não alcançasse o valor da sua libertação.

A devoção a Nossa Senhora das Mercês atravessou os mares e se espalhou pelo mundo. Chegou até nós brasileiros e em sua honra foram construídas igrejas e fundadas confrarias.

Nesta semana tive a alegria de participar, como pregador, de alguns dias da novena na Igreja da Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês, a Ela dedicada na histórica e bela cidade de São João del-Rei, em Minas Gerais. Confesso ter ficado tocado pelo ardor do povo na participação das orações que se prolongavam, respeitando o ritmo das preces herdadas de uma longa tradição. Trata-se de um verdadeiro mergulho numa devoção que já dura quase 300 anos naquelas terras, e que traduz nos seus textos, música e cantos, o afeto filial dos que encontram refúgio sempre seguro e libertação oportuna nas mãos da Mãe de Jesus e nossa.

A devoção e arte se encontram, criando uma beleza genuína e atraente. São marcas da fé que, apesar do passar dos tempos, permanecem e continuam inspirando a vida de pessoas de todos os níveis sociais, imprimindo ritmo saudável a toda uma população.

Quando os sinos tocam, quem se encontra na cidade é convidado a elevar o pensamento e o coração a Deus ao longo de toda a jornada. E isso não apenas durante o novenário! Os dias são-joanenses têm uma diferenciação no seu ritmo. Os mais de 50 sinos das belas Igrejas barrocas, que soam ao longo do dia e também da noite, recordam aos cidadãos que um Deus grande, bom e belo os acompanha nas mais variadas circunstâncias: domingos, festas, trabalhos, exultações, dores e mortes. O badalar dos sinos lembram um Deus que entra na vida das pessoas e as ajuda a reconhecer o valor das horas e das tarefas que fazem parte do cotidiano de todo mundo.

Nos vários tipos de toques, se sabe se alguém nasceu, morreu, o horário das missas, procissões e festividades das igrejas. São marcas da fé que nos ajudam a bem contar os nossos dias (Sl 89, 12) e deixam seus rastros na vida da família, nas funções profissionais e enchem de dignidade a vida do ser humano. Estes mesmos sinais, além de convocar-nos a pensar em Deus e encontrar sentido e alívio, recordam a solidariedade entre as pessoas, pois as irmanam nos diversos acontecimentos da vida daqueles que vivem perto de nós.

Fé e vida se encontram, respeitando a autonomia de suas realidades. Destaca-se, assim, a dignidade da vida de todos os dias, enche-se de sentido as realidades vividas, mostra-se que fé e vida quando unidas, longe de rebaixar a vida humana, abrem-na a novas, grandes e belas possibilidades.

A recordação de Nossa Senhora das Mercês, neste 24 de setembro, nos faça elevar-lhe uma prece fervorosa para suplicar a libertação de toda a humanidade das novas e velhas escravidões, comprometendo-nos a unir sempre mais a fé à existência de todos os dias.